Em tom irritado, Obama responsabiliza republicanos por eventual calote da dívida e convoca reunião com líderes de partidos para hoje

Denise Chrispim Marin – O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2011 | 0h 00
Fracassaram ontem as negociações entre a Casa Branca e o presidente da Câmara, o republicano John Boehner, sobre um acordo para evitar a suspensão de pagamentos da dívida dos Estados Unidos no início de agosto.
Irritado e frustrado, o presidente americano, Barack Obama, convocou os líderes republicanos e democratas do Congresso – inclusive Boehner – para apresentarem uma alternativa numa reunião hoje às 11 horas (12h, no horário de Brasília) e responsabilizou o Partido Republicano pela eventual suspensão de pagamentos.
“Esse era um acordo justo e extraordinário”, desabafou Obama à imprensa, ao explicar que a proposta em negociação com Boehner representaria um avanço em relação ao melhor projeto sobre a mesa, dos senadores que formam a Gangue dos Seis. “É difícil entender por que Boehner se retirou dessa negociação, se muitos dos legisladores republicanos haviam apoiado a iniciativa, assim como muitos de seus eleitores”, disse o presidente.
Boehner, segundo Obama, não chegou a responder a seus telefonemas ontem. Teria enviado apenas uma carta, queixando-se de ele ser muito “categórico” em relação ao aumento de tributos. Dizendo-se “ainda otimista, porém menos confiante” na conclusão de um acordo até 2 de agosto, Obama avisou que ajustes serão necessários se o pior cenário prevalecer.
“Os republicanos terão de assumir a responsabilidade por não haver pagamentos federais. Não os estou culpando. Mas, isso terá de acontecer”, afirmou, referindo-se a mais de US$ 300 bilhões em desembolsos com beneficiários da Previdência e dos programas de saúde para carentes, idosos e deficientes, com empresas contratadas e com detentores de títulos do Tesouro.
Depois de Obama, Boehner convocou uma entrevista para acusar a Casa Branca de recusar-se a negociar “com seriedade”, ao ter exigido um aumento adicional de US$ 400 milhões na arrecadação, além dos US$ 800 milhões já acordados. Boehner disse que a única maneira de fazer a economia crescer “é com o corte real de gastos já” e não com aumento de impostos em época de dificuldade. “Negociar com o Casa Branca é como negociar com um pote de gelatina”, afirmou.
Em carta a seus colegas de partido, ele disse que desistiu de negociar “não por causa das nossas personalidades, mas pelas diferentes visões sobre nosso país”.
Aposta. Obama apostava nas negociações com Boehner como meio de tornar mais fácil e rápida a aprovação de um projeto para elevar o teto da dívida pública, hoje em US$ 14,3 trilhões, e para ajustar as contas nos próximos dez anos. De maioria republicana, a Câmara é avessa ao aumento de tributos e defendia uma proposta de ajuste por meio de cortes de gastos públicos – derrubada ontem pelo Senado.
Obama e Boehner haviam concordado em fazer um corte de US$ 3 trilhões nos gastos correntes e de defesa e mais US$ 6 bilhões nas despesas da Previdência e dos programas de saúde nesses dez anos. Dada a perspectiva de diminuição total na dívida, de US$ 3,7 trilhões, esse acordo sugeria o aumento de pouco menos de US$ 700 milhões na arrecadação de tributos.
Essa medida seria executada com o fim da atual redução de impostos para grandes companhias e contribuintes com renda superior a US$ 250 mil ao ano.