Quantos negros tem na sua sala?

O racismo e elitismo da Unicamp é reflexo da nossa sociedade

 

    Os negros, no Brasil e no mundo, estão à margem da sociedade e isso reflete também na realidade das universidades públicas do país. Segundo o IBGE, os negros (pretos e pardos) eram a maioria da população brasileira em 2014, representando 53,6% da população; no entanto, neste mesmo ano 76% das pessoas mais pobres do país eram negras[1]. Os postos de trabalho mais precários, a terceirização e trabalhos insalubres, como os garis, tem uma cor: negra. Não é à toa que o racismo se perpetua até hoje. Ele faz parte de um projeto político aplicado por todos os grandes partidos dos ricos, como o PMDB, PT e PSDB que governaram o país nos últimos anos e nunca tiveram políticas públicas para ir a fundo no combate ao racismo. Sua política foi pela manutenção do povo negro à margem da sociedade. Isso se refletiu até na política de cotas implementada nas UFs durante o governo Dilma, que deixava a desejar comparada à reivindicação do movimento negro; devido ao racismo são negadas oportunidades de emprego ao povo negro que, sem opção, é submetido aos mais precários postos de trabalho, os mais baixos salários (ganhando até 40% menos que os brancos) e sem garantia de seus direitos trabalhistas, assegurando mais lucro para os ricaços.  

    Esse projeto político se reflete na composição dos negros no conjunto dos estudantes da USP e UNICAMP que, contrariando todas as Federais e 90%[2] das Estaduais do país, não têm cotas. Em 2016, apenas 15% dos matriculados são negros na USP[3] e 20% na UNICAMP[4], sendo que estas universidades têm o projeto de “vestibular nacional”, onde participam da prova pessoas do país todo. Tanto a nível estadual, com aproximadamente 37% de negros, quanto nacional, a Unicamp não reflete a realidade demográfica. A “melhor universidade” do país é elitista e racista, quase não tem negros em suas salas de aula mas tem muitos no trabalho terceirizado. Isso mostra a ineficiência do PAAIS (Programa de Ação Afirmativa para Inclusão Social) enquanto programa de inclusão étnico-racial, reivindicado pela antiga e atual gestão da reitoria (Tadeu e Knobel) e pela maioria dos conselheiros do CONSU (Conselho Universitário).

 

A greve nos garantiu avançar com a pauta de cotas na universidade!

 

    Graças a muita luta e resistência dos quilombos a escravidão hoje não existe mais. Conquistou-se cotas étnico-raciais para as universidades públicas e em alguns concursos públicos, e hoje o racismo é crime. Nada disso foi dado de graça: foi fruto de muita luta e mobilização do movimento negro, e para a conquista das cotas na Unicamp não vai ser diferente.

    A UNICAMP viveu, em 2016, a maior greve de toda sua história, unificada entre os professores, estudantes e trabalhadores, contra os cortes e a precarização da universidade. Pela universidade inteira tivemos rodas de conversa e debate sobre cotas, se tornando uma das principais pautas da nossa luta. Graças à greve, ocupação da reitoria e os piquetes conquistamos 3 audiências públicas para debater sobre cotas e a insuficiência do PAAIS; foram implementadas cotas na pós-graduação da Faculdade de Educação.

 

Nenhuma confiança no CONSU!

 

No dia 30 de Maio será votado no CONSU, pelos conselheiros e representantes discentes, o relatório das audiências e o projeto desenvolvido pela Frente Pró-Cotas (FPC) e Núcleo de Consciência Negra (NCN) da UNICAMP.

O CONSU é a instância deliberativa máxima da universidade e que não conta com nenhuma democracia. Quase todos os membros são professores e a minoria estudantes, não refletindo a composição da universidade onde a realidade é a contrária.

    As audiências foram um sucesso, lotadas pelos movimentos sociais de todo estado e estudantes. Ainda assim, mesmo com grande debate e chamados aos conselheiros do CONSU, não houve participação dos mesmos.

Está muito claro que os conselheiros não se comoverão apenas com debates e longas reuniões. Os conselheiros que se colocam contra as cotas, seja abertamente ou de forma velada e “em cima do muro”, só se sentirão constrangidos e votarão favoravelmente ao projeto quando sofrerem uma grande pressão por parte dos estudantes e da população. Só com muita pressão é que conquistaremos do CONSU que já aprovou tantos ataques algum avanço.

 

Para conquistarmos as cotas é necessário um calendário unificado de lutas.

 

O mês de abril será um mês de grande mobilização interna com um importante calendário de atividades nos institutos para discutirmos as cotas com os estudantes. Fazemos um chamado para que, junto às atividades, se construa um ato na Unicamp de forma conjunta: DCE, CAs, NCN, FPC e coletivos do movimento estudantil, neste dia 20 de Abril. Que façamos um panfleto de forma unificada que convide massivamente os estudantes para o ato e discuta a necessidade de cotas na Unicamp e demonstre para os conselheiros a força de nossa mobilização.

    Não podemos deixar que os atos se limitem apenas ao dia 30 de Maio, dia da votação no CONSU. Precisamos fazer desse dia um fato político nacional. É necessário um calendário de mobilização externa à Unicamp, através de trancaços de rodovias e atos no mês de Maio, construído por todas as organizações, para expormos para a população a realidade dos negros dentro da universidade e ganharmos seu apoio, que junto a unidade de todo o Movimento estudantil da Unicamp é determinante para a conquista das cotas.

 

Unir a luta pelas Cotas à construção da Greve Geral em 28 Abril

 

Dia 21 de Março foi o Dia Nacional de Luta Contra o Racismo. Contraditoriamente, o corrupto congresso nacional aprovou a lei da terceirização, que possibilita a contratação de trabalho terceirizado em qualquer setor. Os trabalhadores terceirizados recebem em média 23% a 27% a menos do que os contratos formais. Já vimos o trabalho terceirizado subir de 4 para 12,7 milhões de contratados sob os governos de Lula e Dilma (PT). Hoje, também, temos mais de 13 milhões de desempregados no país. Na juventude são quase 1/3 de desempregados. Se não bastasse a terceirização, a reforma da previdência de Temer (PMDB/PSDB) quer nos fazer trabalhar até morrer, e não vamos aceitar.

Os massivos atos do dia 15 de Março, combinados com paralisações de muitas categorias e o dia 31 de Março, demonstram que há muita disposição dos estudantes e trabalhadores para derrubar o governo Temer e a sua retirada de direitos. As centrais sindicais fazem um chamado para a construção da Greve Geral no dia 28 de Abril. Nós precisamos combinar a nossa luta pelas cotas na UNICAMP com a Greve Geral! Levar uma grande faixa para o ato de 28 de abril numa coluna unificada da Unicamp reivindicando cotas. Só assim teremos uma grande vitória para a população negra, que será uma das mais impactadas por esses ataques, e para todos os trabalhadores e a juventude.

 

Rumo às cotas na UNICAMP e à Greve Geral no país! Cotas já! Fora Temer!

 

Referências:

[1] – https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2015/12/04/negros-representam-54-da-populacao-do-pais-mas-sao-so-17-dos-mais-ricos.htm

 

[2] – https://www.cartacapital.com.br/educacao/universidade-de-sao-paulo-diz-nao-as-cotas-raciais-7882.html

 

[3] – http://www.fuvest.br/estat/qase.html?anofuv=2016&tipo=2&fase=3

 

[4] – http://www.comvest.unicamp.br/estatisticas/2016/quest/quest1.php

 

Leitura complementar:

 

1 – Sobre o documentário “Eu não sou seu negro”. Priscila Guedes, 2017 – http://vamosaluta.com.br/2017/03/03/eu-nao-sou-seu-negro-um-documentario-necessario-sobre-o-debate-racial-nos-eua/
2 – Movimento Negro e Luta de Classes no Brasil. Mário Makaíba, 2012 – http://cstpsol.com/home/index.php/2012/11/21/arquivoid-9271/

 

Créditos da foto: Esquerda Diário