
A juventude brasileira voltou a ser manchete dos jornais nas últimas semanas. Além das grandes manifestações contra a corrupção em várias cidades no 7 de setembro e das passeatas contra o aumento da tarifa de ônibus em Teresina-PI, as ocupações de reitoria são a marca de uma geração que cansou de esperar a boa vontade dos reitores e do governo para que solucionem os nossos problemas. O clima é dos mais favoráveis, pois rebeliões sacodem os quatro cantos do planeta, e hoje já deixou de ser piegas falarmos em revoluções. Desde a ocupação da reitoria da UFF, onde tivemos participação mais ativa, o nosso coletivo traz esse texto como contribuição para todo o movimento estudantil brasileiro. Trata-se de uma breve reflexão sobre o que está ocorrendo e dos desafios impostos. Boa leitura!
As ocupações

Todas as ocupações saíram vitoriosas em suas pautas. É muito importante demarcar isto porque outras seriam as tarefas daqui para frente se o movimento estivesse saindo derrotado. Basta olharmos rapidamente os documentos assinados pelas reitorias da UFSC, UFPR e UFF, por exemplo, para percebermos que conseguimos arrancar muita coisa. É verdade que o movimento deve seguir mobilizado para efetivar tais conquistas, mas o temor das reitorias e a fraqueza que demonstraram só foram possíveis porque há uma situação de instabilidade nas IFES. Além da heróica greve dos servidores das universidades, as crises do REUNI estão cada vez mais latentes. Nos arriscamos a dizer que a equação: contradições do REUNI + corte de verbas + instabilidade política do governo federal + situação mundial (crise e rebeliões) + custo de vida elevado (inflação, tarifas de ônibus, preço dos alimentos, etc.), + a disposição de luta da juventude, é a combinação que está gestando os indignados brasileiros.A maior mobilização da história da UFF, que em seu ponto alto contou com mais de mil estudantes em mobilização permanente, foi por mais professores, salas de aula, por segurança nos campi e seus arredores, por moradia, bandejões, etc. Mas, além disso, por democracia na universidade, que se demonstrou mais descaradamente antidemocrática por estes dias quando o Reitor Roberto Salles tentou passar por cima de tudo e de todos se aliando à Prefeitura de Niterói (não nos esqueçamos das vítimas do Bumba e outras comunidades e dos 10 mil novos desabrigados que Niterói “ganhou”) para passar por dentro do Campus do Gragoatá uma via meramente turística no megalomaníaco Caminho Niemeyer, projeto de cidade mercadoria do prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT). Nossa ocupação também foi muito classista, pois o apoio a greve dos servidores foi uma das bandeiras gerais mais agitadas nas manifestações. O fato do SINTUFF ter ocupado a reitoria junto com os estudantes ajudou a selar a unidade que foi a responsável pela derrota da reitoria. Contamos também com o apoio da ADUFF e de inúmeros professores que se dispuseram a dar aulas dentro da ocupação. A unidade entre os estudantes e trabalhadores foi fundamental e vemos que este é o caminho.
O papel da UNE

Do outro lado da trincheira, a jornada da UNE em Brasília foi um grito sem eco, visto que não refletiu a luta direta das ocupações. Pelo contrário, tentou armar um palco para Dilma na audiência que tiveram com ela, que como sabemos está comprometida com os banqueiros e empreiteiros e não com os estudantes e os trabalhadores. Nenhuma das ocupações ocorreu por vontade ou linha da direção majoritária da UNE e se os mesmos chegaram a “visitar” alguma delas, foi para não se desmoralizarem ainda mais perante os estudantes. Na UFF, por exemplo, toda vez que a bandeira da UNE era empunhada pela majoritária ocorria um enorme rechaço dos estudantes, confirmando essa característica antiburocrática.
Os indignados

Os indignados são Marias, Josés, Marianas e Pedros que começaram a perceber que somente se mobilizando é possível melhorar a vida.Dentre tantas características, uma das mais visíveis desta nova vanguarda que surge, é a luta por democracia real e contra as burocracias, sejam elas do Estado ou dos movimentos. Nossa ocupação teve muito esta cara, democrática, combativa e de base.É algo parecido com o que tem ocorrido no Chile, onde cresce a indignação contra a forma burocrática com que a CONFECH tem se proposto a dirigir as mobilizações. Se fortalece a ACES que inclusive se solidarizou com nossas ocupações. Enviamos três companheiras ao Chile como um esforço de solidariedade, aprendizado e articulação internacional.
15 de outubro: dia mundial de ocupação de praças
Outro ponto fundamental é o 15 de outubro. Ainda há, mesmo na vanguarda, desconhecimento sobre as mobilizações deste dia. Vemos ser uma tarefa da oposição de esquerda da UNE ser parte da construção deste Dia Mundial de Ocupação de Praças. Propomos uma reunião que possa tratar deste tema.
A campanha dos 10% do PIB para a Educação Já!
A campanha dos 10% do PIB pela educação, uma bandeira correta, tem que partir dos problemas concretos, a começar pela denúncia do corte de verbas da educação e da crise do REUNI. Devemos refletir que nenhuma ocupação se deu por esta bandeira. Há uma proposta de adiamento da data do plebiscito para março de 2012. Não vemos que o centro da questão seja a data, pois mesmo que estivéssemos em muitas eleições de DCE´s e perto do CONUBES, se estivesse acontecendo mobilizações, passeatas e ocupações de base por esta bandeira seria correto priorizá-la. Mas não vemos desta forma. Em nossa opinião o que é urgente é articularmos os nossos movimentos para a nova dinâmica que se abriu, de ocupações e passeatas, de mobilizações educativas para toda uma nova geração que tem surgido. É necessário nos prepararmos para a ocupação das maiores reitorias do país, temos que reeditar a ocupação da USP, da UnB, da UFMG, etc. Os comitês de base que deveremos construir na campanha dos 10% para educação devem funcionar como comitês de mobilização concreta, que para além de formar as pessoas nos debates sobre financiamento, organize mobilizações pelas pautas concretas, como vem ocorrendo com as ocupações e seja uma ponte de apoio a luta dos servidores em greve.A oposição da UNE hoje dirige a maioria dos DCE’s das públicas, por isso temos uma responsabilidade de coordenar e unificar essas ocupações. É urgente uma reunião dos DCE´s referenciados na oposição de esquerda à direção majoritária da UNE, para que articulemos um Fórum de DCE´S, com a ANEL, que possa ir ajudando e incentivando que mais e mais rebeliões ocorram pela base.
Corrupção

Por último o tema da corrupção tem que ser novamente agarrado pelo movimento estudantil organizado. A UJS e os aliados do PT não podem mais tocar lutas com esta pauta, pois são base do governo que não sara suas crises de corrupção. Não existe uma “faxina ética” realizada por Dilma, pois a mesma teria que demitir o vice-presidente, todo o PMDB, e muitos “companheiros” de PT. Aliás, Paloci não é mais ministro mas está livre para desfrutar da sua fortuna conseguida com tráfico de influência. Os atos do dia 7 de setembro são a demonstração da indignação que a corrupção causa às pessoas, em especial na juventude. Somente em Brasília mais de 25 mil pessoas participaram da manifestação. O Senado de Sarney e Calheiros não tem condições de propor uma reforma política. O STF barrou o fica-limpa; A câmara perdoou Jaqueline Roriz. Apenas nas ruas e mobilizações é que podemos impor uma reforma política radical propondo voto aberto, financiamento de campanhas exclusivamente público, fim do Senado, revogação de mandatos, fim da imunidade parlamentar, definição do salário dos parlamentares através de plebiscitos populares, fim dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dos políticos e de empresas que tenham contratos com o Estado, o fim ao sigilo comercial dos empresários doadores de campanha e pela abertura da contabilidade de suas empresas e, por fim, derrubar o regime diferenciado das licitações das obras da copa, etc. Devemos participar dos atos organizados pela internet e organizar tantos outros.Tudo isto para ajudarmos com que os mais de mil indignados da ocupação da UFF e das demais ocupações, tornem-se centenas de milhares de indignados por outra universidade, outra educação e outro tipo de sociedade. Vamos à Luta
