
Marco Antônio P. Costa
Revoluções são possíveis e muitas vezes inevitáveis. É isto o que a realidade do mundo tem demonstrado. Há uma onda crescente de clamor popular por mudanças profundas na forma de organização das nossas sociedades. É tão bonito quanto contraditório: a crise, todas elas, com muitos efeitos colaterais danosos para os de baixo, é também uma oportunidade para a saída. O mais liberal e o maior marxista concordam que estamos vivendo dias onde guerras, revoltas, motins e revoluções podem ocorrer. Gostamos de chamar isso de situação revolucionária.
Não tão contraditório assim é a maneira como agem os defensores da manutenção do status quo. Acuados como bichos em uma armadilha feita por eles próprios, é possível perceber suas tentativas de reagir. Seus espasmos de reação. Reacionários de toda sorte tem se levantado à protestar e a disputar a sociedade. De certa forma, as expressões anti-imigrantes na Europa; os Villepin na França; os Bolsonaros da vida (e seus admiradores) são nuances desse tipo de fenômeno que sempre existiu mas que hoje são mais latentes. Do ponto de vista econômico, apesar da desmoralização mundial de errarem todos os seus prognósticos, os “professores” do mundo seguem com a receita única de redução de direitos para recuperarem seus lucros. Os chamados capitalistas moderados, hipocritamente dizendo-se anti financeiristas, são uma piada de mal gosto que não fazem rir nem a si mesmos.
No Brasil, há pelo menos 3 anos, uma nova forma desses espasmos começou a aparecer nas universidades. Os Diretórios Centrais de Estudantes (DCE´s), que outrora eram ignorados por esses setores, viraram alvo de uma cobiça voraz. De certa forma, nossa tese é que se trata de uma tentativa de reagir aos ventos de mudança. Já que seus espaços e dogmas hoje são questionados e muitos estão indo por água abaixo, eles resolveram disputar os espaços que antes eram identificados como sendo de exclusividade de setores identificados com as diversas esquerdas, que aliás, por isso mesmo, lhes causava grande ojeriza.
Os últimos acontecimentos da USP são o melhor exemplo disto. Nunca se tratou de um debate sobre a polícia no campus ou sobre maconha, exclusivamente. O debate, de fundo, é em relação à toda sociedade. Fumar maconha é errado, coisa de vagabundo. A polícia é do bem (como são maniqueístas), aliás, ela existe só para te fazer bem. Livre financiamento de pesquisas. Universidade empreendedora. Estudante não é para pensar, é para competir. Valores, essa é a melhor palavra. O que está em jogo na USP são os valores de uma sociedade. No caso da nossa, com um conservadorismo católico capenga e envergonhado que em momentos como esse não resiste à tentação e explode em mensagens de xingamento aos tais baderneiros.
O fato é que eles estão gostando disso. Quase ganham a eleição da federal do Rio Grande do Sul, que já ganharam há anos atrás. Ganharam na UnB. Estão disputando na USP e na UniRio. Aliás, os mesmos tem porta vozes oficiais, como é o caso do Reinaldo Azevedo, colunista da Veja, ativo militante da reação que não titubeia em apoiar tais chapas divulgando-as em sua coluna.
Seria cômico se não fosse trágico, mas em comum nessas chapas há a defesa da “liberdade”, que encontra vários pares na história do mundo como elemento utilizado para justificar retrocessos brutais e sanguinários. A única liberdade que eles defendem é a das grandes empresas e bancos. Para nós, maioria ex-silenciosa da sociedade, os 99%, os indignados, querem impor mordaças e têm a PM a seu dispor para fazê-lo até porque ela existe exatamente para isso.
Se trata de uma disputa aberta e é característica sine qua non das situações revolucionários que os véus da disputa ideológica e política do dia-a-dia se dissipem no ar.
Cerrar punhos e combate-los é o que temos feito e o que temos que fazer muito mais! Não passarão!
