O ativismo de Roger Waters e a greve dos rodoviários

Marco Antônio P. Costa


Roger Waters, ex-vocalista do Pink Floyd veio ao Rio fazer um show da turnê “The Wall”. O álbum de 1979 é um marco na história fonográfica e apesar da divisão da banda e dos mais de 30 anos passados, o concerto foi perfeito e espetacular.

Porém, não é de hoje que a genialidade musical de Waters não é a única marca de suas turnês. Suas declarações políticas altamente críticas pelos países por onde passa são frequentes. Foi ativista de primeira hora contra Bush e a Guerra do Iraque na turnê do lendário Dark Side of the Moon. É também um ativo militante da causa palestina. Dessa vez, no Chile por exemplo, fez questão de tentar ajudar a mobilização dos estudantes. Quis inclusive se encontrar com o Presidente Piñera para entender a situação colocada. Após o encontro declarou através de nota oficial à imprensa: “Deixei o Palácio La Moneda em estado de choque, apesar de não ter dito nada à imprensa reunida fora do local. Estou sendo muito duro com o senhor presidente? Espero que não. Será que todos os políticos são tão descuidados com a verdade?”. No encontro Piñera havia afirmado que todos os jovens chilenos tinham opções em relação à educação e que a repressão às mobilizações não ocorrem. Sabemos que a “opção” de cerca de 80% dos jovens chilenos é pagar ou pagar. Como o próprio presidente Sebástian Piñera declarou ano passado: “na vida nada é de graça!”.

No Brasil, além da abertura do show com bandeiras do MST, a homenagem ao brasileiro assassinado pela polícia britânica Jean Charles também marcou. Declarou durante o show: “Gostaria de dedicar este concerto a Jean Charles, sua família e sua luta por verdade e justiça; e também a todas as famílias das vítimas do terrorismo de estado em todo mundo. ‘The wall’ não é sobre mim, mas sobre Jean e todos nós”.

Além disso, o já conhecido e esperado porcão inflável que sobrevoa os fãs durante a apresentação, que no show de 2007 trazia como mensagem principal a palavra de ordem “Bush, fuck you”, desta vez continha o dizer “Quem vai pagar a conta?”, numa referência à atual crise econômica e aos ataques que tem sido feitos aos trabalhadores do mundo inteiro por causa dela. Não parou por aí. Durante a execução do clássico “Mother”, no verso que diz: “Mother, should I trust the government?” (“Mãe, eu devo confiar no governo?”), um escândaloso “NEM FUDENDO!” apareceu no gigantesco telão.

E a greve dos rodoviários? Bom, é necessário voltar à concepção do The Wall para entendermos a relação metafórica. Quando Waters compôs este álbum, que é um tanto quanto autobiográfico, estava passando por uma crise pessoal e profissional. O álbum tem como protagonista o jovem “Pink”, artista que acaba construindo um muro que o separa do seu público. Depois de poucas e boas, por assim dizer, Pink destrói o muro e, enfim, consegue ficar em paz consigo mesmo. Isto foi retratado fielmente no show, inclusive com um muro físico sendo construído e destruído no palco que tinha o comprimento de toda a ala norte do Engenhão. O Pink era um cara esculachado, que sofria com os maus tratos da sociedade e não conseguia erguer a cabeça. Quem deveria lhe ajudar, a sua mãe, não só não o fazia como também lhe esculachava. Essa metáfora é perfeita para lhes explicar a greve que está ocorrendo.

Estávamos na assembléia dos rodoviários. Eram 200 trabalhadores dentro do sindicato e mais de 700 na frente, no meio da rua. A pauta era a campanha salarial de 2012. O sindicato estava trancado e guardado por seguranças não muito amigáveis. De lá de dentro a mensagem do presidente era: “a proposta da patronal de 10% de reajuste é boa”. O que não lhe passava pela cabeça era que o Pink, neste caso o trabalhador rodoviário, iria começar a destruir o seu muro. Uma rebelião de base iniciou. A base toda deflagrou greve à revelia do sindicato (a mãe que deveria apoiar mas que esculacha) e saímos para um piquete no terminal de Niterói. Era tudo muito incerto, porém os contatos feitos e a militâcia garantiram quase 100% de adesão na manhã do dia seguinte. Sem sindicato e, contra ele, os trabalhadores improvisaram mega fone e panlfetos.O acampamento “natural” na frente da sede do sindicato para impedir que a direção feche um acordo rebaixado só é interrompido quando nós vamos a novos piquetes no terminal. Nesses dois dias uma verdadeira revolução tem acontecido nessa categoria. Sem estrutura e nem experiência, o movimento é altamente democrático. Novos dirigentes foram forjados nesses 2 dias de greve. Muitos outros ainda irão se forjar nessa luta. Antiburocráticos e combativos.

Enfrentar os empresários e os governos já é difícil e quando o sindicato também é vendido a luta é mais dura ainda. A justiça também é patronal e isto ficou claro na primeira reunião de conciliação feita hoje no TRT. A patronal não fez nenhuma contra proposta. Ao receber tal notícia a assembléia da base na frente, mas sem o sindicato, foi unâmine em votar a continuidade do movimento. Foi surreal que depois da assembléia da base o sindicato colocasse duas caixas de som nas janelas do 2º andar. As vozes que vinham lá de dentro, entre as grades e sem ninguém aparecer nas tais janelas, vozes sem rosto, tentavam aterrorizar os trabalhadores e convencê-los a acabar com a greve. De nada adiantou! Nem um peão sequer votou na proposta de suspensão do movimento e gritaram: “a greve continua, patrão a culpa é sua!”, intercalando com “Ô Joaquim*, pode esperar que a tua hora vai chegar!”

Nenhuma das reivindicações está garantida e pode até ser que não saia uma contundente vitória econômica dessa luta, porém, a vitória política dessa categoria que ergueu a cabeça já é fantástica!

O anticapitalismo, o antigovernismo e o muro de Roger Waters se encontram na luta dos rodoviários de Niterói à Arraial do Cabo. Lutar por 25% de reajuste salarial é não aceitar pagar a conta da crise econômica; não confiar nos governos “nem fudendo” é entender que o seu sindicato precisa de uma nova direção e que Cabral, Dilma e a Justiça são patronais, como os mesmos estão percebendo; Arrancar das mãoes da PM um ativista que foi preso num piquete é ser brutalmente contra o terrorismo de estado. É disso que estamos falando.
Certamente Roger Waters não sabe/soube dessa greve, assim como certamente boa parte dos companheiros rodoviários conheçam apenas “Another Brick In The Wall”. Mas cada um, a seu modo, são parte da situação do mundo atual, onde cada vez mais muros e muros tem sido implacavelmente derrubados.
Apesar do preço exorbitante, aconselhamos à todos que tiverem oportunidade de ir nos shows que Roger Waters ainda irá fazer no Brasil, que façam essa experiência fantástica. Porém, aconselhamos mais ainda, muito mais mesmo, que TODOS apoiem incondicionalmente não apenas esta greve, mas as lutas de diversas categorias e segmentos que estão se chocando contra muros e injustiças no nosso país e no mundo. Vamos à Luta!
*Joaquim é o presidente do Sindicato que há 22 anos é dirigido por uma burocracia ligada à NCST (Nova Central Sindical dos Trabalhadores) e ao PMDB.