Por Rafael Lazari
“É triste. Não é fácil escutar um babaca chamar a gente de macaco. Fico triste por existirem pessoas assim, mas mantenho a minha cabeça erguida. Tenho orgulho da minha cor.”
“É triste. Não é fácil escutar um babaca chamar a gente de macaco. Fico triste por existirem pessoas assim, mas mantenho a minha cabeça erguida. Tenho orgulho da minha cor.”
Dedé, zagueiro do C. R. Vasco da Gama e da Seleção da CBF (um dos melhores do mundo).
A Copa do Mundo de 1934 celebrou o mais bizarro dos jogos de futebol. A partida final da competição pôs em campo os passes do time que defendia a mais terrível das experiências humanas. A equipe “italiana” contava com o primeiro brasileiro campeão do mundo de futebol, e com muitos outros estrangeiros, incorporados para cumprir a tarefa de ajudar a construir um forte sentimento de orgulho nacional. A seleção da República Social Italiana fora pensada por Benito Mussolini, e era peça estratégica de seu projeto, o time sagrou-se campeão vestido de seu uniforme preto, cor oficial do Fascismo.
Mussolini e Hitler perderam a guerra, e o “Primeiro Marechal do Império Fascista” teve sua cabeça exposta em uma estação petrolífera de Milão. Mais alguns anos se passaram, o futebol provocou paixão em todos os cantos do mundo, e viu surgir o maior de seus gênios. Negro como os torturados, estuprados e assassinados inimigos de Mussolini, Edson e a bola fizeram Pelé: o maior protagonista da história do futebol.
“A identidade alemã foi confeccionada como obra de arte: formas espetaculares desenharam o espírito da massa nos estádios esportivos, nas marchas militares, em canções patrióticas. O nós coeso deveria anunciar ao mundo a supremacia dessa identidade. A estética nazista indicou quem eram os alemães, o que deveriam ser, mas vetou a transfiguração da alma ariana. O povo vislumbrava o rosto coletivo, reconhecia-se nele, consumia-o, impossibilitado de violar a essência alemã ou conspirar um outro destino. Arte e política fizeram a diferença brilhar, mas impediram-na de recusar a estética da sua irremediável natureza. Alemão só deveria beber cerveja alemã”.
Luis Antônio Baptista, “Combates Urbanos: A Cidade Como Lugar de Criação”.
Mas ainda não retiramos todas as consequências do intolerável. Milhares de pessoas, mais uma vez, ao mesmo tempo e num só coro, oprimem brutalmente o povo negro. É como se, quase que semanalmente, os milhares de torcedores de futebol equatorianos, paraguaios, italianos, russos ou espanhóis, fizessem multiplicar e vestissem nas arquibancadas as camisas pretas usadas pelo time de Mussolini na copa de 1934.
No último 4 de abril sofreu Vagner Love, o atacante do Flamengo ouviu a torcida equatoriana do Emelec imitar macacos para ofendê-lo. Vagner, criado em Bangu, retornou recentemente ao Brasil depois de passar seis anos jogando na Rússia. Dezesseis dias antes, na capital russa, a torcida do Lokomotiv atirara bananas sobre o zagueiro congolês Christopher Samba. Samba jogava contra o Anzi, time de Roberto Carlos, lateral consagrado no Real Madrid. Samba disse preferir não acreditar que o racismo ainda existe no mundo. Já Roberto Carlos deve ser mais convicto: em junho do ano passado, na mesma Rússia, as bananas foram atiradas sobre ele, e alguns anos antes a Federação Espanhola de Futebol punira o Desportivo La Coruña em míseros 600 Euros, por manifestações racistas contra o jogador. Na mesma época, Roque Jr e Juan, então atuando pelo Bayern de Munique, sofreram racismo da torcida do Real Madrid, agressão que sequer foi relatada pelo árbitro da partida, e ignorada pelo então presidente da UEFA, Lennart Johansson, presente ao estádio.
Edgar, jogador português que atuava no Málaga da Espanha, disse já ter pensado em abandonar uma partida no meio por causa de gritos racistas vindos da arquibancada. Não o fez por respeito ao povo espanhol, que segundo ele não é racista: “Estou cá há sete anos e, apesar de um caso ou outro, posso dizer que Espanha não é um país racista”. Edgar assim afirmou em rede nacional ao comentar o sofrido momento vivido por Samuel Eto’o. O camaronês ouviu “sons de símios” (uh, uh, uh) vindos da arquibancada no momento em que ajeitara a bola para cobrar um escanteio pelo Barcelona, ameaçou então sair de campo e abandonar o jogo. Ronaldinho Gaúcho e Rafa Márquez afirmaram que se Eto’o saísse fariam o mesmo, mas Fernando Torres insistiu para que ficasse e o camaronês o atendeu. A resposta da Comissão Espanhola contra o Racismo foi a de adiar em cinco minutos os jogos da rodada seguinte em “sinal de apoio” ao camaronês. Apoios como estes, na verdade são expressões de cumplicidade.

