Em meio à turbulenta crise econômica que assola o mundo, gerando convulsões políticas em todos os seus cantos, a burguesia internacional apostou no Brasil como anfitrião dos maiores eventos esportivos do planeta e da Jornada Mundial da Juventude (JMJ). Podemos compreender esta aposta, pois eles avaliavam que ao contrário da Europa e do mundo Árabe, encontrariam aqui um terreno pacificado pela alta aprovação do governo e pelas correias de contenção das burocracias sindicais e estudantis. Acreditavam na falsa imagem de que o Brasil vivia as mil maravilhas e “não seria afetado pela crise”.
A solidez de tais avaliações se desmanchou em poucos dias. O povo tomou as ruas, escancarou em cartazes e palavras de ordem o caos em que vivemos, derrotou os governos barrando o aumento das tarifas e impondo outra agenda política, cravando a abertura de outro capítulo da nossa história. A Copa das Confederações virou um inferno para os governantes, e o povo nas ruas transformou o Brasil no pior anfitrião que a FIFA já teve.
É nessa nova situação que o Papa Francisco chega ao Brasil para a JMJ. Não sem antes receber líderes católicos brasileiros para avaliar os riscos de encontro com manifestações. Não sem antes ter palavras de garantias do Exército. O pontífice já mudou sua agenda para tentar arrefecer as manifestações. Nós respeitando a religiosidade dos milhares de jovens que estão no Rio, mas queremos analisar o papel que o Papa e Igreja cumprem.
O que o Papa vem fazer aqui?
A escolha de Francisco para substituir Bento XVI tem clara fundamentação política: o argentino Bergoglio é o primeiro jesuíta eleito, o primeiro pontífice não europeu desde o ano de 741, e sua retórica é a de que a pregação católica deve ser a da “humildade, serviço, caridade e o amor fraterno”, tendo realizando pequenas ações simbólicas que lhe garantiram grande destaque (troca do anel, vestimenta, carro). Há ainda um discurso de “renovar a igreja” e apelos contra o “capitalismo selvagem”. O papa é pop, sua ascensão é uma tentativa da Igreja de se recredenciar, depois de tantos escândalos, como uma instituição que possa conduzir os sentimentos ousados da nova geração que se faz conhecer por indignada em todo mundo. É também uma necessidade após a gestão ultra-conservadora de Bento XVI, cujo currículo incluía a perseguição da Teologia da Libertação, a ala esquerda dos católicos. Só que o discurso político de Francisco contradita com seu passado de apoio à ditadura argentina e a continuidade de escândalos no Banco do Vaticano já no seu mandato.
Se já era seu maior desafio desde que assumiu a condução do vaticano, a JMJ se tornou mais urgente após as lutas de junho nas ruas brasileiras. As elites que governam o mundo precisam da Igreja como instituição de prestígio para conseguir amortecer a juventude. Este é o papel histórico e incurável do Vaticano, aliado até dos regimes fascistas. A Igreja é parte do regime da falsa democracia e da injustiça social que governa o mundo. Por isso também a dupla moral que ataca o direito ao aborto e descrimina os LGBT’s ao mesmo tempo em que a Igreja está cheia de casos de pedofilia.
A juventude está reencontrando nas ruas, nas praças e nas trincheiras, a fé em um novo mundo. Jovens Sírios, Egípcios, Gregos, Espanhóis, Norte-Americanos, Chilenos, Brasileiros já estão em uma Jornada Mundial, e não precisam do Papa. Não precisam porque a fé das ruas não tolera os regimes autoritários, não aceita a falsa democracia corrupta dos ricos, enfrenta a homofobia e o machismo, e não convive pacificamente com a depredação da saúde e da educação. Alguém comprometido com os valores da “caridade” e da “humildade” iria à Mare se solidarizar com os familiares dos mortos pela chacina operada pela Polícia, repudiaria o governador ou ainda repudiaria os gastos com as Copas da FIFA ou com a dívida externa e interna. Mas Francisco I está do outro lado, e sua vinda ao Brasil é para prestigiar os governos Cabral e Dilma. A prova mais imediata de que está na contramão da verdadeira jornada da juventude é o fato de o próprio evento católico ser financiado por milhões de reais de dinheiro público brasileiro, enquanto o Vaticano não mexerá em nenhum centavo de sua fortuna de privilégios e corrupção.

