Michel Tunes – Coordenação da CST-PSOL
*Artigo publicado na edição nº 48 do Jornal Combate Socialista
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| Manifestação em Brasília durante as Jornadas de Junho/2013. |
Uma geração de indignados se rebela contra o sistema. Essa legião desperta ao calor das revoluções árabes, greves europeias, acampadas da Espanha, do Occupy Wall Street, das manifestações de Portugal e Chile. Eles aprenderam que a ação direta nas ruas derruba ditaduras e derrota governos. São quem transformam praças em mini-comunas do século XXI: Tahir, Puerta del Sol, Syntagma, Zuccotti Park e Taksin.
É a vanguarda gestada após as revoluções que derrotaram as ditaduras stalinistas e derrubaram o muro de Berlim. Desatrelada da burocracia que destruiu as conquistas bolcheviques de 1917, não está presa aos esquemas da Guerra Fria, chorando o fim da URSS e a “situação defensiva”. Sem seguir os velhos Comunistas/Socialistas, confiam em suas próprias forças e lutam por seu futuro transformando o impossível em inevitável e o extraordinário em cotidiano. Questionam a fé cega nos “lideres”, não acatam decisões prontas, querem democracia na discussão e simpatizam com a radicalização. Expressam uma revolução política que avança desde 1989, uma rebelião das bases que questiona a esquerda que administra o sistema e trai as lutas. Protestam contra o totalitarismo, a democracia burguesa e os partidos da ordem “que não nos representam”.
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| Queda do Muro de Berlim, 1989. Cai a falsificação do socialismo, o stalinismo. |
A juventude é o motor dessa revolta global porque não tem perspectiva de futuro no capitalismo, sendo atacada pela crise econômica: cortes de direitos, baixos salários, desemprego, péssimos serviços públicos. É a juventude “à rasca”, precarizada. Por outro lado não aceitam a irracionalidade do sistema. Entram em movimento com facilidade não se importando com as consequências, diferente da maioria dos operários que com mais dificuldade se descolam dos dirigentes sindicais pelegos.
Foi Leon Trotsky, fundador da IV Internacional, quem disse que “quando se desgasta um programa e uma organização, desgasta-se a geração que os carregou nos ombros. A renovação do movimento se faz por meio da juventude, livre de toda responsabilidade com o passado”. E é isso que estamos assistindo em escala mundial frente ao declínio das antigas lideranças de esquerda. Os revolucionários apostam no espírito ofensivo e no entusiasmo dos indignados para superar as lacunas e debilidade dessas nova vanguarda.
Não somos apartidários: é necessário organização política!
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| Movimento “Democracia Real Já!”, Espanha/2011. |
Em meio à falência dos reformistas, que aplicam o ajuste fiscal, governam com a burguesia e traíram as revoluções árabes, não se visualizam fortes alternativas revolucionárias. É compreensível, portanto, o crescimento do apartidarismo. Nesse contexto o autonomismo se alimenta de correntes e intelectuais anti-partidários surgidos pós-queda do muro de Berlim que fazem campanha contra os partidos revolucionários de esquerda.
Compreendemos e respeitamos os ativistas que defendem essas ideias, mas discordamos dessas concepções. Acreditamos que essa é a polêmica central do movimento. Levar ou não bandeiras numa passeata é secundário. Nós da CST-PSOL e do Vamos à Luta defendemos a necessidade de organização, de um programa e de um instrumento político partidário para os manifestantes.
É preciso um programa e uma organização política anti-capitalista
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| Manifestações na Turquia/2013, parte das lutas na “Primavera Árabe”. |
Por mais massivas que sejam as lutas, por mais heroicos que sejam os manifestantes, sem um programa e um partido revolucionário além de novos organismos para continuar mobilizados não teremos transformações radicais como as propostas que apresentamos aqui no nosso jornal.
Após manifestações os poderosos ficam na defensiva ou são derrotados, mas tentam se reciclar para seguir governando. No Egito a revolução levou a irmandade mulçulmana ao poder, para depois derruba-la, sendo que os militares tentam usurpar a vitória. Quer dizer, podemos derrubar um governo ou conquistar a redução das passagens, mais depois eles voltam a nos atacar por outras vias ou com um novo governante. É impossível mudar o país e o mundo sem que a classe trabalhadora e o povo tomem o poder político e governem para os de baixo, concretizando nossas pautas. E para realização de nosso programa necessitamos da um partido revolucionário. Na Bolívia, após várias insurreições, a COB-Central Operária Boliviana teve que deliberar a proposta dos mineiros sobre a fundação de um Instrumento Político dos Trabalhadores, pois lá também a representação independente no terreno político é uma necessidade.
Não acreditarmos que essa mudança virá através das eleições, mas discordamos dos que se negam a utilizar esse espaço. Achamos importante disputar com nossas propostas também nesse terreno e, se possível, eleger parlamentares que apoiem as manifestações. Na luta em Porto Alegre, foi importante a ação dos vereadores do PSOL no momento das passeatas. No Rio, as posições de Freixo ajudaram a levar gente pra rua.
Por fim, entendemos que o movimento social que está em curso precisa se articular mais. Já vimos que para obter vitórias temos que fortalecer organismos de combate, como o Fórum de Lutas Contra o Aumento do Rio. Essas articulações devem ser mantidas nos estados e conduzidas com o máximo de democracia, sempre ouvindo a todos. Agora é o momento de enraizar nossa luta por meio de comitês por local de trabalho, estudo e moradia. Ao mesmo tempo devemos coordenar uma reunião nacional do Bloco da Luta do RS, o MPL de SP, o Fórum do RJ com os demais movimentos estaduais para discutir a mobilização no segundo semestre.




