Pablo Picasso é considerado o pintor mais importante do século XX. Esteve fortemente comprometido com a luta da Espanha republicana contra os fascistas de Franco. E nos deixou sua obra mais conhecida: Guernica.
Por Mercedes Petit
Pablo Picasso nasceu em 1881, na ilha espanhola de Málaga, estudou na Escola de Arte de Barcelona e depois morou em Madrid. Chegou a Paris em 1900 e desde então alternou sua moradia entre França e Espanha, até a queda da Republica. Foi se transformando em um dos principais protagonistas das grandes transformações que resultou na “arte moderna”. Também foi o mais produtivo. Quando morreu, deixou mais de 1900 quadros, 3200 cerâmicas, 7000 gravuras, 1200 esculturas e 20 mil esboços. Desde jovem, colaborou em cenografias de teatro, balé e escreveu vários poemas. Por seu ateísmo, sua paixão republicana e sua característica de artista multifacetário, teve pontos em comum com outra grande pessoa da época, o andaluz Federico Garcia Lorca, assassinado em 1936 pelos franquistas. Ao contrário de Picasso, Lorca gostava de viajar muito.
Em Paris, vinculou-se aos surrealistas e foi André Breton quem o ajudou a vender a um bom preço o quadro “As senhoritas de Avignon” que havia pintado em 1907 e daria início, em meio a rejeição, ao escândalo, ao cubismo e a arte abstrata do novo século. Em julho de 1925, a revista Révolution Surréaliste publicou pela primeira vez seu quadro junto com seu outro quadro cubista, “A Dança”.
Para além do seu vinculo com os surrealistas, sem duvidas, Picasso confluía com eles na total liberdade para a criação artística e seu compromisso com a realidade social. Uma vez disse: “Não, a pintura não existe só para decorar as paredes das casas, é uma arma que serve para atacar ao inimigo e para defender-se dele”.
Uma luta apaixonada contra o franquismo
A vida e a obra de Picasso estiveram indissoluvelmente ligadas à causa republicana e ao combate contra o fascismo. Em 1934, integrou o Comitê Antifascista de Intelectuais de Esquerda, fundado em Paris pelo físico Paul Langevin, junto a André Guide e Irene Joliot-Curie e outros. Em 1936 o governo republicano nomeou-o diretor do Museu do Prado de Madrid. Produziu em seguida um panfleto com 18 gravuras, intitulado “Sonho e mentira de Franco”, uma sátira contra o levantamento, publicado em janeiro de 1937. Toda sua atividade e produção artística orientou-se a arrecadar apoio material para o bando republicano.
Em 26 de abril de 1937, no País Basco, a cidade de Guernica foi destruída e arrasada por bombardeios de aviões italianos e alemães, aliados a Franco. O governo republicano já tinha pedido a Picasso uma obra para exibir em junho daquele ano na Exposição Internacional de Artes e Técnicas da Vida Moderna em Paris.
Em dois meses de trabalho febril, com infinidade de esboços prévios. Picasso produziu sua obra mais famosa e desgarradora, Guernica.
![]() |
| Pablo Picasso. Guernica, 1937. |
Picasso não modificou sua criatividade artística, absolutamente livre. Sua obra seguiu sendo praticamente desconhecida na URSS e nunca viajou até lá. Também não se impregnou do “realismo socialista”, essa monstruosidade pseudoartística que Stalin impunha a seus burocratas. No final dos anos 40 e começo dos anos 50, ele participou ativamente dos congressos mundiais pela paz que impulsionava o stalinismo. Talvez o que mais perdure daquele período é sua convicção pacifista e a célebre pomba branca, que foi utilizada em milhares de cartazes dos partidos comunistas no mundo todo.
Um grande artista e um homem livre
No terreno da arte, muito se deve do século XX a Picasso, um dos maiores expoentes. Nunca se transformou em um “stalinista”, não perdeu sua convicção de lutador pela liberdade. O desenho que fez como homenagem a Stalin quando morreu em 1953 gerou um grande escândalo e foi repudiado pelos burocratas do PCF.
Em 1956, houve uma sangrenta repressão sobre a insurreição dos trabalhadores húngaros por parte das tropas da URSS, Picasso condenou essa repressão junto a outros intelectuais que enviaram uma carta ao jornal L’Humanité. Quando, em 1968, as tropas da burocracia soviética invadiram a Tchecoslováquia, já sopravam outros ventos. Os três principais partidos comunistas da Europa, o Frances, o Italiano e o Espanhol, foram críticos e assim nascia o que se chamaria de “eurocomunismo”. Picasso, já com seus 85 anos, seguia pintando sem obedecer ordens de ninguém.
Por isso, para além dos conhecimentos ou gostos no terreno das artes plásticas de cada um, podemos dizer que desde essas páginas “Obrigado Mestre, por Guernica e por sua vida de artista livre e comprometido”.
*Em 1938, Bretón visitou León Trotsky no México, e ambos publicaram um Manifesto por uma arte revolucionaria e independente(Ver o El Socialista N°45, 27/9/06). Seu lema “toda liberdade na arte”, coincidia com a criatividade livre que durante toda sua vida Picasso praticou.
O retrato de Stalin horrorizou os stalinistas.
![]() |
| Pablo Picasso. Staline, 1953. |
Em 5 de março de 1953, Josef Stalin morreu, o chefe máximo da ditadura instaurada na URSS desde os anos 20. O semanário cultural do PCF, Les Lettres Françaises, dirigido por Luiz Aragão, publicou um número especial em homenagem ao “Grande Benfeitor da Humanidade” que incluía o retrato pedido a Picasso.
O desenho se transformou num escândalo. No dia seguinte, L’humanité, o jornal oficial do PCF o qualificou como uma caricatura insultante e blasfêmia e exigiu que fosse destruída toda a edição da revista. O artista tinha feito algo que para eles era imperdoável: Retratar Stalin como um russo comum e um simples ser humano.
Picasso lamentou dizendo que condolências se agradecem “ainda que a coroa não seja bela”. O fundador do surrealismo André Bretón desfrutou do escândalo. O pintor, também surrealista, Salvador Dalí qualificou o desenho como “o melhor retrato de Stalin que existe”.


