Por Mariana Nolte*
Novamente a direção majoritária da UNE, composta pelas juventudes do PCdoB/UJS e do PT, mancha mais um capítulo da história do movimento estudantil brasileiro. No terreno de número 132 da Praia do Flamengo, histórica sede da UNE incendiada pelo regime militar no golpe de 1º de abril de 1964, há uma placa da empreiteira W Torre, contratada para realizar a obra, anunciando aluguel e venda de salas comerciais. A “Torre Flamengo”, um luxuoso prédio de dez andares que está sendo construído desde 2012, tem o custo de R$65 milhões, sendo que os R$44,6 milhões que a UNE recebeu de indenização do Estado brasileiro pela destruição da sede, deveriam custear a maior parte da obra.
De todo esse dinheiro, a direção majoritária da UNE até hoje não prestou contas de sua utilização e agora fica evidente que o terreno que pertence aos estudantes brasileiros, será entregue pelas direções do PCdoB e do PT, para ser explorado pelos empreiteiros. Não há dúvida que, mais uma vez, o governo do PT, PMDB e PCdoB encontrou uma forma de retribuir a “doação” de milhões reais que a WTorre fez às campanhas eleitorais de Dilma Roussef.
Basta! Nem os ataques dos governos nem as traições das direções!
Estamos às vésperas do 54º Congresso da UNE, que ocorrerá entre os dias 3 e 7 de junho, em Goiânia. O primeiro CONUNE depois das Jornadas de Junho de 2013 que demonstraram que a força da juventude nas ruas pode derrotar os ataques dos governos, como o aumento das passagens dos transportes. Este será o CONUNE polarizado entre aqueles que querem e os que não querem derrotar o conjunto do ajuste fiscal pelo qual PT, PMDB, PCdoB, PSDB e DEM estão hoje unificados para retirar direitos trabalhistas através das MPs 664 e 665 – aprovadas com os votos dos parlamentares do PT e do PCdoB – e do PL 4330 das terceirizações e reprimindo as greves dos trabalhadores, como em Curitiba (PSDB) e Goiânia (PT). Estará polarizado também entre aqueles que querem ou não construir a maior greve da educação já vista nesse país para recuperar cada centavo que Dilma e Levy cortaram do setor para alimentar os agiotas do sistema financeiro através do pagamento da dívida “pública” e que está aprofundando a crise das universidades.
Mas também estão divididos aqueles que querem construir uma verdadeira saída pela esquerda para a crise econômica e para a falência do podre regime político de falsa democracia dos ricos. Para tentar desviar o foco do ajuste fiscal, PCdoB e PT, assim como fez o PSDB ao falar de “impeachment”, utilizam o discurso da “onda conservadora” e apresentam como saída uma falaciosa “reforma política democrática” que solucionaria os problemas econômicos da juventude e da classe trabalhadora brasileira e da corrupção praticada por seus próprios partidos e os da direita tradicional. Desse modo, tentam insinuar que o problema é o “Congresso conservador” e não o governo conservador que aplica medidas conservadoras.
No entanto, está claro que, enquanto a UNE não romper com o governo Dilma, seguirá “abrindo alas” para o ajuste fiscal, para os cortes de verbas, para o interesse dos tubarões de ensino, dos banqueiros e dos empresários. Chegando ao ponto de não apenas ser conivente com a relação corrupta entre o governo e as empreiteiras, como foi ao convocar a solidariedade com os “Josés” do mensalão, Dirceu e Genoíno, ou fazendo campanha do Collor em Alagoas nas últimas eleições. Mais que isso, a UNE está sendo parte do esquema, transformando a sede da entidade em um balcão de negócios dos ricaços que estão tentando empurrar a conta da crise para as nossas costas.
Os delegados e delegadas do 54º CONUNE devem repudiar esse escândalo
O regime militar tinha um objetivo claro quando definiu como uma de suas primeiras medidas incendiar a sede da UNE: retirar dos estudantes e suas lideranças o espaço físico que a ajudava materialmente a ser tão perigosa naquele momento. Há anos, as direções do PCdoB e do PT rasgaram a Carta de Princípios do Congresso da Refundação da UNE de 1979, que estabelecia o classismo internacionalista, a defesa da educação pública e gratuita e, especialmente, a independência política da entidade.
Com mais esse capítulo da sede e a defesa de um governo que ataca economicamente, reprime e oprime a classe trabalhadora, as mulheres, os negros e as negras, os LGBTs, os estudantes e a educação pública, terminam de enterrar as bases políticas que o movimento estudantil brasileiro estabeleceu para reconstruir a entidade que ajudou a mobilizar os estudantes para derrotar a ditadura.
Não há outra saída que não construir uma nova direção pela base a partir de cada luta estudantil como a dos estudantes da UFRJ que ocupam a reitoria e estão parando cada Escola para combater o impacto do ajuste fiscal na universidade. Mas também é hora de dizer NÃO às políticas escandalosas dessa direção no Congresso. Por isso, é necessário votar o repúdio à entrega do prédio às empreiteiras, assim como medidas que democratizem a entidade com o objetivo de mobilizar – como as eleições diretas – para a principal tarefa imediata dos estudantes brasileiros, que é de derrotar os cortes na educação e conjunto do ajuste fiscal em curso aplicado pelo governo Dilma. Além disso, não temos dúvida de que também é necessária uma resolução desse Congresso de construir a greve geral da educação unificada com os professores e técnico-administrativos, batalha que a Juventude Vamos à Luta está disposta a dar junto aos companheiros da Oposição de Esquerda.
* Coordenação da Juventude Vamos à Luta / Oposição de Esquerda da UNE
