Diante da crise da UERJ é preciso repetir as mobilizações de Junho

Guilherme Bento*

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro vem enfrentando uma das maiores crises dentre as universidades públicas do país, tanto do ponto de vista financeiro, quanto do ponto de vista político. O governador Pezão (PMDB) cortou do orçamento da UERJ, que já era insuficiente, R$91 milhões para, em meio a crise econômica, poder continuar garantindo o lucro das empreiteiras, empresas de transporte etc. Pezão, assim como outros governos, como o de Sartori (PMDB) do RS, aplica a nível estadual o mesmo ajuste fiscal que o governo Dilma-Temer (PT/PMDB) encabeça nacionalmente. Se no RS, Sartori parcelou o salário dos servidores públicos estaduais para garantir o pagamento dos juros da dívida pública do estado, aqui no RJ, além dos cortes de verbas para as universidades estaduais, Pezão anunciou reajuste de 0% para os servidores nesse ano e para 2016.

A UERJ além de ter a infelicidade de ser administrada por um governo do Pezão, também tem o desprazer de ser governada por Ricardo Vieiralves, reitor petista que chegou ao poder apoiado pelo fato de ser próximo ao governador pmdebista politicamente (na época, Sergio Cabral), reitor que desde 2008 lança notas no site da UERJ afirmando que o governo do PMDB sempre esteve ao lado da educação pública e que todos problemas serão resolvidos. A partir do corte brutal do orçamento da UERJ, a crise começou a massacrar os dois grupos mais pobres da universidade: os alunos cotistas, que enfrentam os atrasos da bolsa permanência, e o corpo trabalhador terceirizado, como é o caso do pessoal da limpeza, segurança e elevadores, que desde o fim do ano passado passaram a ter como regra o atraso do salário. O sindicato pelego blinda o governo, ao invés de lutar com eficácia pelo pagamento dos salários.

Já o DCE, que tem o dever de mobilizar a base estudantil, é dirigido pelas juventudes do PT e PCdoB, por isso assumem em alguns momentos uma postura totalmente omissa e, em outros, como na última quarta-feira, marcam ato em horário difícil para a mobilização dos estudantes. Parte do movimento estudantil se mobiliza por fora do DCE: este é o grupo formado por aqueles ativistas, coletivos e organizações políticas que são independentes da reitoria, do governo estadual e federal e que, na última quarta-feira, realizaram um ato que mobilizou um grande número de estudantes e fechou os elevadores, que deram um recado para a reitoria de que haverá ato todo dia até que os salários caiam.

Mais problemas no segundo semestre…

O reitor Ricardo Vieiralves informou na quarta-feira que a UERJ não abriria na sexta-feira, dia 4 porque faltaria água por causa de uma manutenção, mas algumas evidências colocam em dúvida o que foi informado: 1) a UERJ já funcionou sem água em outros momentos; 2) Vieiralves já fechou a UERJ outras vezes, inclusive já fechou por vários dias após manifestações; 3) nesse dia ocorreu na UERJ concurso da CAPES e um Congresso de enfermagem. Pasmem! As terceirizadas não foram liberadas porque “não haveria água”, elas estão lá trabalhando e as ascensoristas estão trabalhando.

É possível então formular algumas hipóteses: 1) Realmente há a questão da manutenção, porém Vieiralves não cancelaria as aulas em outro momento, mas como hoje aconteceriam protestos que certamente fechariam os elevadores, o reitor resolveu melhor assegurar que haveria elevadores e nada de protestos, que “incomodam” boa parte dos que frequentam congressos, tanto os insensíveis que só querem saber de subir de elevador, quanto os conscientes que ao chegar para o congresso ficam sabendo dos abusos que acontecem dentro da UERJ; 2) não existe falta de água, tudo inventado para não informar o real motivo do fechamento; 3) nas duas hipóteses que pensei, as terceirizadas são vítimas de abuso no trabalho, se tiver rolando água elas continuam trabalhando sem salário, se tiver faltando água, elas além de sem salário, devem estar com sede, como já aconteceu em outros momentos na UERJ, onde faltou salário e água para os trabalhadores.

A maioria parte do corpo terceirizado é composto por mulheres negras, que já sofrem todas as cruéis opressões e enfrentam dentro da UERJ mais abusos que precisam parar. As terceirizadas que fizeram greve no primeiro semestre do ano foram demitidas, os alunos que protestaram tiveram que enfrentar muitas vezes as agressões físicas e perseguição política ordenadas pela reitoria. É preciso que o corpo discente, docente e dos técnicos-administrativos construam mobilizações cada vez mais fortes na UERJ, através dos atos, das paralisações/greves e que seja realizado um grande veto a candidatura de Ruy Garcia Marques do movimento Avançar UERJ, que promete ser sucessão da gestão Vieiralves, embora faça com Vieiralves o mesmo que Pezão fazia com Sérgio Cabral: escondia a figura de Cabral da sua propaganda eleitoral porque o ex-governador estava tão queimado que alguém apoiado publicamente por ele não seria eleito nem para síndico de um prédio.

Todos ao ato no dia 08/09 e à Assembleia Geral dos Estudantes no dia 10/09!

Nesse sentido, é necessário que o movimento estudantil independente e da oposição de esquerda ao governo Dilma continue a mobilização, repetindo as assembleias, paralisações e manifestações de rua que ocorreram em Junho deste ano e que garantiram algumas vitórias parciais, como o acumulo de bolsa para cotistas. Parciais porque o problema de fundo das nossas condições de estudo e permanência na universidade só pode ser resolvido derrotando a política de ajuste e cortes de Dilma, Pezão e Vieiralves, assim como demonstra a heroica greve das universidades federais que já dura mais de 90 dias. Em todo pais, ocorrem mobilizações de trabalhadores e estudantes: a UERJ precisa ser parte desse processo, unificando a luta com outros setores como os estudantes secundaristas da FAETEC que estão dando um show de unidade com os trabalhadores das escolas técnicas, independente da burocracia estudantil que dirige as entidades secundas municipal e estadual. Nesse sentido, devemos fortalecer o calendário tirado na última manifestação: um novo ato o dia 08/09, às 17h, no Hall do Queijo e a Assembleia Geral dos Estudantes no dia 10/09, às 18h, com local ainda a definir.

*Membro do Centro Acadêmico de Psicologia da UERJ e militante da Juventude Vamos à Luta / CST-PSOL