Vamos à Luta contra a homofobia!
Camila Leite, CST-PSOL/RJ
Mariana Nolte, Vamos a Luta UFF
No último capítulo da novela do horário nobre da TV Globo foi exibida, pela primeira vez na história da televisão brasileira, a cena de um beijo entre dois homens. Depois de declarações de amor Felix e Nico praticaram o mais comum ato de afeto: o beijo. Este acontecimento inédito deve nos fazer refletir sobre o momento em que vive o nosso Muitos setores políticos insistem em afirmar que existe um processo de avanço dos pensamentos conservadores e reacionários em nossa sociedade. Alguns chegaram até o absurdo de divulgar um suposto “golpe fascista” em junho do ano passado, ameaça que nunca existiu. Através destes argumentos se explicaria o grande número de parlamentares eleitos que defendem pautas conservadoras ou a indicação do pastor Marcos Feliciano à presidência da Comissão de Direitos Humanos na Câmara Federal, que já deu diversas declarações machistas, racistas e homofóbicas. Temos uma visão diferente.Por que o “beijo gay”?
O enorme avanço que representa a exibição do beijo entre dois homens em “Amor à Vida”, no horário nobre de uma das maiores redes de Televisão do País, é consequência da luta histórica dos movimentos LGBTT que há décadas, enfrentando todo o preconceito, discriminação e violência, não abre mão de disputar a consciência da população contra todo o pensamento conservador que argumenta que “o relacionamento amoroso só pode ocorrer entre uma mulher e um homem” e tudo que for diferente disso é errado e criminoso. No entanto, a luta pelas liberdades sexuais e de gênero se intensificaram passando a ocupar as ruas de todo país, principalmente depois que Feliciano assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Mulheres, negrxs, gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, ativistas da luta contra a intolerância religiosa, enfim, uma série de setores oprimidos ocuparam as ruas aos milhares pelo #ForaFeliciano, pauta que foi amplamente reivindicada nos cartazes e palavras de ordem das jornadas de junho. O desgaste provocado pelas mobilizações foi tanto que, no final de 2013, Feliciano deixou a comissão. A Marcha das Vadias, a cada ano, reúne cada vez mais pessoas e, no último mês, aconteceram atos denunciando a morte de Kaique, jovem paulista vítima de homofobia.
As novelas globais, assim como tudo que esta rede produz, exercem uma grande influência sobre o pensamento da população, estimulando ideologias neoliberais e defendendo os pilares do regime político e dessa falsa democracia burguesa. Mas com esse episodio tivemos uma pequena demonstração de que a força das ruas pode derrotar o conservadorismo da classe dominante e sua mídia corporativa. Afinal, o movimentode massas que ocupou as ruas durante as Jornadas de Junho e os diversos setores da classe trabalhadora em greve no último ano fizeram sua experiência quando foram reprimidos e, ao ligarem a televisão ou olharem a capa dos jornais, viram a mídia os chamando de “vândalos”, entre outras formas de criminalização, não por acaso a Rede Globo foi um dos alvos centrais dos manifestantes nas mobilizações que ocorrem desde junho, saindo bastante desgastada desse processo. O beijo gay no horário nobre da Globo é consequência da mobilização dos setores oprimidos contra uma mídia que usa de seu poder e influência para manter a ideologia conservadora e preconceituosa da classe dominante através de sua programação televisiva, do rádio, do jornais e da internet, já que a TV da família Marinho teve que de ceder. Mais isso não é o bastante e nem resolve todos os nossos problemas. A Globo, rede de comunicação que sustentou ideologicamente a ditadura militar no Brasil, possui a maior parte das concessões de televisão no país, presente dado por José Sarney (PMDB) no período em que foi presidente, hoje um dos principais aliados do governo de Dilma e do PT e que, em dez anos, nunca sequer questionou ou reviu estes contratos. Alias o PT tem como aliados estaduais inúmeros concessionários da Rede Globo nos estados.
Seguir na luta contra a homofobia!
Em nenhum momento as novelas vão a fundo nos problemas que os gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais passam em sua realidade e, apesar dos “finais felizes”, a mensagem transmitida é quase sempre de que “um casal gay não pode dar certo”. A grande mídia é a que apoia os mesmos políticos que disseminam as ideias que resultam em práticas opressoras e levam ao assassinato e ao sofrimento da população LGBTT hoje no país, sobretudo os jovens e os mais pobres*
Segundo dados do Grupo Gay Bahia (GGB), o Brasil está em primeiro lugar no ranking mundial de assassinatos homofóbicos, concentrando 44% do total de execuções de todo mundo. O relatório de 2011 também apontou que a cada 33 horas um homossexual brasileiro foi barbaramente assassinado, vítima de homofobia e o GGB “outorgou o troféu Pau de Sebo à Presidenta Dilma na condição de principal inimiga dos homossexuais do Brasil”2 Segundo dados do Grupo Gay Bahia (GGB), o Brasil está em primeiro lugar no ranking prevenção e combate à homofobia e ao bullyng nas escolas justificando que não faria “propaganda da homossexualidade”, além de ter cancelado o filme de prevenção à Aids para gays no Carnaval e não avançar no debate da criminalização da homofobia.
As alianças conservadoras do governo Dilma, com uma base de sustentação em nome da “governabilidade” tem como consequência um brutal retrocesso nas políticas de combate à homofobia, o que ficou claro com a indicação do pastor Marcos Feliciano para CDH e outros parlamentares de sua base aliada que defendem projetos como a “cura gay” e o “Estatuto do Nascituro”. Os 10 anos de governos “democráticos e populares”, por meio de uma ampla coalizão com a burguesia, e um programa de conciliação de classes, significaram um fortalecimento dos setores oligárquicos. Por isso nos governos Lula e Dilma todas as pautas libertarias que estão nas ruas foram renegadas e criminalizadas pelo governo do PT/PMDB, um governo que possui o apoio do PCdoB.
Dilma anunciou o cancelamento de políticas públicas de renegadas e criminalizadas pelo governo do PT/PMDB, um governo que possui o apoio do PCdoB. Tirando o beijo gay, os preconceitos estão escancarados na novela e em tantos outros espaços da sociedade brasileira. A Globo não mudou e nem vai mudar, deve ser derrotada. O governo federal não mudou, não está em disputa, segue ao lado do fundamentalismo religioso. A população avançou ocupando as ruas contra as opressões, colocando esse debate na ordem do dia e esta na ofensiva obtendo vitorias. Devemos seguir nas ruas para derrotar de vez a homofobia, os conservadores e o governo fundamentalista de Dilma.
*Segundo o “RELATÓRIO SOBRE VIOLÊNCIA HOMOFÓBICA NO BRASIL: ANO DE 2012”
61,16% das vítimas possui entre 15 e 29 anos. Link: http://www.sdh.gov.br/assuntos/lgbt/pdf/relatorio-
violencia-homofobica-ano-2012.
http://www.ggb.org.br/assassinatos%20de%20homossexuais%20no%20brasil%202011%20GGB.html
