Porque Rolezinho?

MC PH Lima

A história do Brasil é marcada pelo RACISMO e apartheid social contra os explorados que moram nas periferias. Negras e negros são vítimas desse mal desde que chegaram aqui ainda nos primeiros navios negreiros. Antes éramos aprisionados e morríamos nas senzalas, servíamos aos senhores que nos davam apenas “o que comer”. Hoje, somos aprisionados e morremos nas favelas e periferias de todo o país, ainda servimos aos mesmos senhores, que antes eram nossos donos, e agora são nossos patrões e continuam nos dando “apenas o que comer”. 

A chicotada de outrora só mudou de nome, mas não de endereço, pois os tiros, as prisões, os forjados e o tapa na cara, seguem afetando majoritariamente uma cor e um território, a PRETA e os bairros periféricos. Não esquecemos que nos trens da Supervia, ainda hoje o povo leva chicotada e que nas unidades da UPP e nas delegacias ainda existem torturas e assassinatos como os do caso Amarildo, nas fazendas do interior ainda temos irmãos trabalhadores em condições análogas a trabalho escravo.
A polícia, cumpre o mesmo papel nas comunidades que os capitães do mato cumpriam nas caçadas aos quilombos. Caçam e matam moradores das favelas, em sua ampla maioria PRETOS para proteger os luxos dos brancos ricos e poderosos. A política de segurança baseada na repressão, na guerra as drogas, no encarceramento massivo aprisiona milhares de jovens pobres e negros sem apresentar qualquer saída estrutural para os problemas sociais que vivemos. Tudo isso em função dos governos de plantão Dilma, Alckmin, Cabral e prefeitos de todos os partidos burgueses e traidores (PT, PMDB, PSDB, PCdoB). Martelam todos os dias que nossa cultura, ou seja, nossa cor, nosso cabelo, nosso jeito de falar, nossa religião, nossas danças, nossas musicas, são inferiores a dos brancos. 

A mídia e o governo burguês nos ensinam a aceitar que nosso lugar é o de serviçal, mas ao mesmo tempo nos vendem uma falsa ilusão de que somos “livres” e que se “trabalharmos duro” poderemos ser iguais a eles. Nos fazem querer ser Brancos. E cegos por essa ilusão, quase aceitamos viver em um país onde preto e pobre não tem acesso à saúde nem à educação de qualidade, quase naturalizamos quando jovens negros são mortos ou presos sem provas e sem um julgamento. Quase naturalizamos que a justiça que nos julga é quase toda rica e branca e que a criminalização aos nossos bailes funk ainda exista assim como aconteceu com a capoeira e o samba. Parece um absurdo, mas eles fazem uma mãe negra legitimar e se culpar pela morte de seu próprio filho, que morre nas mãos da polícia e não culpar o verdadeiro culpado que é o Estado racista e genocida que o matou. A mídia sensacionalista leva o preto a acreditar que a segurança do patrimônio dos brancos ricos é mais importante do que a nossa própria sobrevivência. 

E é por tudo isso, que o ROLEZINHO e as diversas manifestações de protagonismo das periferias “incomodam tanta gente”! Por que somos pretos invadindo sua praia! Todos sabem que os shoppings centers nunca foram espaços destinados à presença de negros e moradores da periferia em nosso país. A presença desses “bondes de funkeiros”, que começaram nos ‘roles’ de São Paulo, e se espalharam por todo o país, é vista pelos ricos como uma grande afronta e ‘invasão de propriedade’. E de fato é, é como se um ‘escravo abusado’ quisesse passear na “Casa Grande”, ele até tem direito de entrar lá, mas só se for pra servir aos donos da casa, pra limpa-la…, mas nunca pra utilizar o seu espaço. Quantos pedreiros, eletricistas, mecânicos, que acabaram de construir a expansão do Plaza em Niterói, comem no Altibeque? Quantas trabalhadoras do Mc Dolnad e outras redes fet food, submetidas a condições de trabalho vergonhosas, podem comprar bolsas ou relógios nas lojas dos granfinos? Ou seja, o apartheid não se dá apenas com a “proibição” da nossa entrada, isso é uma das formas que ele se manifesta, mas NÃO a única. O apartheid econômico é tão repressor quanto a decisão judicial que proíbe o rolezinho. Quem pode consumir neste espaço? Quem pode frequentar e ter acesso ao “lazer” que é vendido neste espaço? São os pobres? 

Diferente do que a mídia diz, é um debate que é completamente vinculado com a Copa Racista da FIFA e ao Direito à cidade. Os pretos são os que constroem os estádios, mas não são os que assistirão aos jogos. Ou algum trabalhador assalariado tem condição de comprar um ingresso que custa R$ . O governo invade com seu aparato militar as favelas pra proteger os moradores que nelas não vivem. A UPP é um instrumento de clara repressão racista que tem como finalidade proteger as elites e um projeto de cidade voltado para megaeventos racistas e excludentes como a COPA DA FIFA e as Olimpíadas. Prende e reprime os pretos e pobres dentro de sua senzala moderna. As remoções de comunidades Quilombolas, indígenas, periféricas e faveladas são a prova do quanto essa Copa significa um ataque direto ao Direito de moradia dos pobres. VALE TUDO pela copa! Inclusive derrubar escolas para construção de estacionamento ou desalojar nossos ancestrais indígenas. Os rolezinhos trouxeram a tona inúmeros debates importantíssimos a serem feitos. O Racismo fica evidente em todos. A repressão policial que aconteceu em São Paulo, a repressão midiática que se dividi na crítica, ora dizem que o “problema do rolezinho é não ter pauta”, ora dizem que “o problema é a vinculação com pautas políticas”. Chegam a declarar: “O que a Copa tem haver com o shopping?” De qualquer forma, o Rolezinho é um dos mais profundos ataques ao véu da hipocrisia racista deste país. Se fossemos brancos, loiros e de olhos azuis, poderíamos andar tranquilamente nos espaços dos shoppings, desde estivéssemos disfarçados de ricos, vestidos como eles e seguindo sua “educação”. 

Por isso, os rolezinho NECESSARIAMENTE, são manifestações políticas e de combate ao Racismo. Mesmo que nunca tenha ouvido, ou que não esteja gritando qualquer palavra de ordem contra o racismo, contra o capitalismo, contra o governo ou contra o sistema, a presença anunciada de um negro nestes espaços é um ATO de Resistência e de luta!