Júlio Miragaia
“Eita porra, que cheiro de maconha”. Esse trecho, refrão da música de MC Daleste, foi cantado por um grupo de jovens que entrou no Shopping Internacional de Guarulhos no último dia 14. Tem causado, espanto, medo em alguns, confusão e muitos debates os chamados “rolezinhos”, encontro marcado pelo facebook por jovens em shoppings de São Paulo. Contando com a participação de milhares não só nas redes sociais, mas também presencialmente, como no último dia 11, no Shopping Metrô Itaquera, com mais de 3 mil pessoas, esses eventos tem sido criminalizados por empresários, setores da burguesia, da classe média e meios de comunicação.
“Maloqueiros”, “vagabundos”, “baderneiros”, “vândalos” são algumas das expressões que se ouviu e leu em comentários a respeito dos rolezeiros. O fato é que mesmo que de forma despretensiosa os rolezinhos expressam a vontade dos jovens das periferias de ocupar espaços e consumir o que lhes é negado não pelas leis que garantem o direito de ir e vir de todos, segundo a constituição, mas pelo poder econômico e pela aparência.
Essa nova e inusitada situação escancarou o verdadeiro apartheid social existente no Brasil, onde as elites brancas se sentem ofendidas com a massa negra ocupando um espaço que deveria ser apenas seu. Mesmo sem ter havido nenhum roubo nos eventos, no segundo rolezinho do ano, ocorrido no dia 14, a polícia prendeu 23 jovens por perturbação do sossego, no Internacional Shopping Guarulhos, na Grande São Paulo. Aumentando o preconceito e a criminalização, um juiz concedeu uma liminar que multa em bizarros R$ 10 mil quem comparecer em conjunto aos shoppings para a prática do rolezinho.
Segundo o Estadão, dez ‘rolezinhos’ em shoppings estão programados até fevereiro. Em solidariedade aos jovens e em repúdio ao racismo e a criminalização da juventude pobre, estão sendo marcados rolês em várias cidades, como em Brasília e no Rio de Janeiro, nos próximos dias.
Brasil: um país sem racismo SQN
Segundo pesquisa feita em 2012, pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, intitulada “A cor dos homicídios no Brasil”, de cada cem assassinatos cometidos no Brasil, 65 têm como vítimas negros.
“O número de homicídios de negros cresceu nos últimos oito anos, enquanto diminuía o de brancos. Em 2002, foram assassinados 26.952 negros e 18.867 brancos. Em 2010, o número passou, respectivamente, para 34.983 e 14.047. Ou seja, aumentou em 30% o assassinato de negros e diminuiu em 25% o de brancos”. Outro dado preocupante da pesquisa é o aumento do assassinato de jovens negros no Brasil. A taxa é de 89,3 mortes a cada 100 mil habitantes negros de 20 anos contra 31 para brancos da mesma idade.
A pesquisa “Vidas Perdidas e Racismo no Brasil”, publicada em novembro do ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que cerca de 40 mil negros são mortos por ano no país, contra 16 mil não negros mortos anualmente. Além disso, a discriminação da cor da pele bloqueia, de acordo com o levantamento, o acesso a oportunidades de trabalho e dificulta o crescimento profissional daqueles que conseguiram se inserir no mercado.
Outro dado importante é a pesquisa da FGV em 2011, que aponta que 72,6% dos pobres são negros ou pardos no Brasil.
Os números mostram por si que as ações dos governos aos longos dos últimos anos foram todas insuficientes para resolver o problema da exclusão de uma grande parcela da população e a resolver a crise social que se encontra o país. Enquanto bilhões são destinados para estádios de luxo da Copa (R$ 8,01 bilhões gastos na construção de estádios e R$10bilhões que a Fifa irá lucrar) para a juventude negra resta as estatísticas negativas e a marginalidade. Dilma e seu governo tem responsabilidade direta sobre o problema do racismo no país.
Parte das rebeliões juvenis que ocorrem em todo o planeta contra o sistema
Com diferentes expressões e graus de radicalização, em todo o mundo a juventude das periferias tem contestado o sistema, o racismo e a segregação. Ao longo da história vemos revoltas como nos EUA nos anos 1960, a luta contra o apartheid na África do Sul e os recentes movimentos de jovens imigrantes contra as leis e as políticas dos governos que os impede de ter cidadania plena em países europeus e na América do Norte.
As revoltas nos subúrbios de Paris em 2005 de imigrantes de maioria argelina e de outros países africanos, a rebelião imigrante de Londres em 2011 depois do assassinato pela polícia em Tottenham, de Mark Duggan ou os protestos na Suécia em 2013 depois do assassinato de um jovem imigrante na localidade de Husby. Em todos esses levantes houveram processos radicalizados de luta com onda de saques, destruição de lojas e queima de carros.
Temos também exemplos no passado como o de Franklin McCain, de 19 anos, em 1960, que entrou, junto com três colegas num snack-bar reservado a brancos num protesto que ganhou grandes proporções nos Estados Unidos.
A nova situação mundial em que o avanço do desemprego, do trabalho precário e da falta de perspectivas para a juventude, tem imposto cada vez mais novos métodos de luta e contestação aos limites que o sistema capitalista apresenta mesmo que de forma velada para os de baixo.
Os rolezinhos da juventude das periferias paulista é uma expressão, mesmo que inconsciente e despretensiosa desse tipo de movimento.
O que Dilma, Alckmin e Haddad tem haver com isso?
Nas calorosas discussões que temos visto parece, a primeira vista, que há um inimigo invisível que criminaliza e oprime a juventude das periferias. Entretanto, a polícia que reprime e a falta de políticas públicas que proporcionem o acesso a cultura e lazer para a juventude em detrimento do consumo fútil e ostentador tem responsáveis diretos: Dilma, Alckimin e Haddad. São estes governos que cortam verbas da educação para beneficiar banqueiros, empreiteiras e seus demais financiadores de campanha. São os responsáveis pela crise social no país, pela falta de oportunidade da juventude e pela repressão a qualquer tipo de manifestação que perturbe a “ordem”. Por isso é preciso também denunciar e derrotar o projeto desses governos que estão na contra mão do que pede a juventude pobre das periferias.
Total apoio aos rolezinhos! Contra o racismo e a criminalização da pobreza!
O ano de 2014 inicia de um lado com o aprofundamento da crise social, com verdadeiras tragédias como no Maranhão, as chuvas e alagamentos em vários estados e o caos nos transportes e com a violência urbana. Por outro, inicia com sinais de que o processo iniciado em junho de 2013 se dissemina de várias formas para diversos setores da classe trabalhadora, da juventude e do povo pobre. Ao fechar esse texto vemos uma assembleia com mais de 5 mil trabalhadores sem-teto na ocupação Vila Nova Palestina em São Paulo que prepara um “Rolezão contra o apartheid”. A juventude no Rio de Janeiro prepara sua primeira manifestação contra o aumento das passagens. Na semana passada já houve ato em Londrina contra o aumento. Direta ou indiretamente os rolezinhos são filhos de junho e contestam o bem estar da burguesia branca e esnobe paulistana. Mesmo sem saber para onde vai e que proporção ganhará os próximos passos dessas ações, são atos que devem ser apoiados e cobertos de solidariedade, pois são uma luta direta contra o sistema, o racismo e a criminalização da pobreza. Total apoio aos rolezinhos.






