NÃO VAI TER COPA! VAI TER LUTA POR SAÚDE E EDUCAÇÃO!

NÃO VAI TER COPA! VAI TER LUTA POR SAUDE E EDUCAÇÃO!
Paz entre as torcidas, guerra contra a FIFA, a CBF e o governo Dilma!
Rafael Lazari – Vamos à luta/RJ
Michel Tunes – CST-PSOL

Os governos e grandes empresários comemoraram com entusiasmo a vinda da Copa da FIFA e das Olimpíadas ao Brasil, uma proposta pensada e encaminhada por Lula, Dilma, o PT e o PCdoB. Tinham uma certeza inabalável: os megaeventos ludibriariam o povo e seriam uma bela oportunidade para fazer sangrar a conta da crise econômica. Grandes “estádios-elefantes-brancos” a custo de bilhões em “investimento” público e entregues à gestão privada, em beneficio exclusivo dos empresários e das empreiteiras (que financiam as campanhas dos partidos que estão no poder). Este foi o cartão de apresentação do “Padrão FIFA”. Em seguida, o aumento astronômico do valor dos ingressos, expulsando das arquibancadas os maiores protagonistas do espetáculo: a população pobre e negra. Como parte desse projeto os governistas da UJS, juventude da política caduca do PCdoB, dilacerou nosso direito à meia-entrada e o entregou nas mãos dos empresários em forma de lucro e mais exclusão cultural! No entorno dos estádios nenhum ganho estrutural para as cidades: o sistema de transportes foi estrangulado, os serviços públicos privatizados e os alagamentos afetaram até o Maracanã. Para o povo trabalhador, sobrou as remoções, o aumento da especulação imobiliária, o encarecimento do custo de vida e a brutal repressão para quem ousou resistir, como os indígenas da Aldeia Maracanã. Nada diferente do que ocorreu na África, quando a Copa elevou o lucro dos ricos e aumentou a repressão contra o povo pobre e negro.
Os poderosos achavam que tinham ganhado o campeonato… só que não: nosso time entrou em campo e virou o jogo. E assim, antes de fazer um campeão, a Copa ajudou a gerar Junho, impondo uma reviravolta na situação politica do país com vitorias dos manifestantes. “Escolas e Hospitais Padrão FIFA!”, “Da Copa eu abro mão, quero dinheiro pra saúde e educação!”. 2014 nasceu prematuro, sete meses antes: ao invés dos gramados dos modernos estádios, o asfalto das maiores avenidas; ao invés das bolas, inúmeros cartazes; e a bandeira nacional ganhou as novas cores do movimento de massas mundial, dos Occupys e das Primaveras. O que produziu avanços na luta em defesa do parque Aquático Júlio Delamare, do Estádio de Atletismo Celio de Barros e da Escola Frienderich, localizados ao redor do Maracanã privatizado.
“FIFA, volta pra Suíça!”
A alta popularidade de Dilma despencou estrondosamente e nada mais simbólico do que a vaia que a presidenta levou dentro de um estádio. O futebol passou a ser um fator da luta de classes e uma pedra atirada das ruas sobre os palácios, abalando o sistema e o regime politico. O torneio das confederações se transformou em um inferno para os governantes. Ninguém deu muita bola pros dribles do Neymar e os jogos ajudaram a centralizar os dias de protestos, onde se cantava a plenos pulmões: “Não vai ter copa”, “Ei FIFA!, volta pra Suíça”, “Saúde é melhor que Neymar”. Em todo o mundo a mídia expressava maior preocupação com as batalhas entre manifestantes e policiais no entorno dos estádios, do que com os duelos entre seleções dentro deles. E até dentro deles, os gols da final não conseguiram despertar mais interesse do que o protesto dos dançarinos em plena cerimônia de encerramento. Demos “um chute no traseiro” da FIFA, para o desespero de Dilma, do Ministro dos Esportes, o ex-comunista Aldo Rebelo, e da bancada de parlamentares “da bola”.

As jornadas de junho mudaram o Brasil, e colocaram em xeque os dois maiores eventos esportivos do mundo. Copa e Olimpíadas, de possibilidade de “escape”, se transformaram em capítulos centrais da aguda crise econômica e política que atravessa o capitalismo mundial. Transformando, inclusive, em vergonhoso gol contra cada declaração como a de Ronaldinho e Pelé, que diziam para o povo ignorar a ausência de serviços públicos de qualidade como hospitais e mesmo a corrupção com o superfaturamento das obras.

Junho é o mês que não acaba, recebeu as greves de outubro com o protagonismo dos trabalhadores e cresceu, e há poucos dias para o início cronológico de 2014 o acirramento político não dá tréguas. Tragédias e mortes de operários nas obras de estádios em São Paulo e Manaus expuseram a incompetência e as condições de desespero nas quais os trabalhadores estão submetidos devido aos atrasos das construções. Obras que tem estimulado o aumento da prostituição infantil nos arredores dos canteiros. Além disso, vimos o campeonato brasileiro terminar no tapetão e com intensa violência entre torcedores, tudo por conta da burocracia dos cartolas, da máfia do futebol e os interesses carcomidos da CBF, desmoralizando a suposta “elite” que comanda o esporte.
Os ventos de junho e a luta nos gramados!

O furacão que varreu as ruas e os estádios durante a revolta popular de junho gestou novos ares para a luta de classes no interior dos gramados e dos grandes clubes. Organizados pelo “Bom Senso F.C”, os jogadores profissionais realizaram um protesto coordenado nacionalmente durante a 37ª rodada do brasileirão, atrasando o início de várias partidas, algo extraordinário e de uma rebeldia que é produto da nova situação que estamos vivendo. Na verdade, os jogadores apelaram para os métodos de luta da classe trabalhadora, lutando por seus interesses e combatendo o insuportável autoritarismo corrupto que marca o futebol. Agora o Bom Senso F.C aperta a faca no pescoço de Marín e da CBF, por meio de uma carta aberta. A dinâmica do conflito, caso a CBF não ceda, pode colocar em risco o inicio dos campeonatos estaduais. Analistas, como Juca Kfouri, falam até de uma possível paralisação e/ou greve dos jogadores no ano do Mundial.

O certo é que a luta entre jogadores e CBF, para além do embate sobre pontos justos de reivindicação, como a redução do calendário da série A, e a ampliação de jogos oficiais dos torneios do interior, tem exposto o sistema extremamente antidemocrático e empresarial da gestão do esporte no país. A lógica que a orienta é a da estupidez da busca por lucro para empresários, grande mídia e burocratas. A lógica que transformou o futebol num gigantesco negócio que movimenta quantias milionárias, num esquema que enriquece os cartolas, eleva os lucros das multinacionais que atuam no setor e funciona como área para lavar recursos ilícitos. Justamente, e sem nenhuma surpresa para o povo, a mesma lógica que rege o sistema político da falsa democracia, que a esta altura sofre de uma aguda crise de representatividade encurralada pelo grito das ruas.
Para onde vai o futebol brasileiro? Falida, a CBF recebeu um ultimato, e recuando ou não, está com seu poderio à beira do penhasco. Pra onde vai Copa? A FIFA se desmoralizou ainda mais quando demonstrou seu racismo na hora da escolha dos artistas que protagonizariam o sorteio do mundial. Seguramente podemos afirmar que a luta dentro e fora dos gramados vai esquentar em 2014, ao calor dos protestos anticapitalistas que percorrem o mundo!
Tomar as ruas como em junho e fazer greves como em outubro!
É preciso tomar as ruas como em junho, tarefa da juventude indignada, do povo trabalhador e de todos os torcedores do país. Foi com mobilizações massivas que encurralamos os governos e obtivemos vitorias. Os jogadores precisam seguir o exemplo da jornada grevista de outubro e unificar suas lutas com a mobilização dos demais trabalhadores aproveitando as campanhas salariais que vão ocorrer no primeiro semestre. Além disso, podem recuperar a politização radicalizada contra o regime e as experiências avançadas que existiram no âmbito da “democracia corinthiana” do inicio dos anos 1980, como o controle de aspectos do próprio trabalho e da condução de áreas do clube, com decisões centrais sendo tomadas democraticamente por meio do voto direto dos envolvidos. Necessitamos, ainda, coordenar nossos protestos com a luta popular que ocorre na periferia de nossas cidades, a exemplo da explosão social da zona norte paulistana e da mini-intifada de Manguinhos (RJ). É preciso um movimento, nas ruas e nas redes, muito mais poderoso do que aquele que levou a queda de Ricardo Teixeira da CBF. É preciso construir, pela base, uma greve geral para impor mudanças radicais, coisa que as direções traidoras e governistas não querem fazer.

“Nem guerra entre as torcidas, nem paz entre as classes”, como dizem os torcedores do ferroviário. Abaixo a Copa, a FIFA, a CBF, a Cartolagem, a máfia do futebol e o STJD! Abaixo o Ministério dos Esportes, a bancada da bola e a politica do governo Dilma para o futebol! Chega de interesses comerciais, de patrocinadores e da mídia no comando das partidas! Todo apoio as reinvindicações dos jogadores! Democracia real nos Clubes, Federações, Confederações! Revogar a privatização dos Estádios! Reestatização do Maracanã sob controle dos torcedores e dos trabalhadores do setor! Ruptura e auditoria nos contratos com a FIFA e com as empreiteiras, destinando os mesmos valores gastos com a Copa nas escolas e hospitais! Revogar todas as leis que criminalizam as lutas sociais! Pelo irrestrito direito de greve e manifestação! Fim da restrição da meia-entrada! Revogar a Lei Geral da Copa! Desmilitarização da PM! Fim da utilização das forças armadas contra manifestações! Fim das operações conjuntas da Policia Federal, ABIN e das secretarias de segurança do Rio e São Paulo! Arquivamento da Lei Antiterrorismo! Derrotar o pacto de ajuste fiscal de Dilma, governadores e prefeitos, suspender o pagamento da divida, revogar a LRF e garantir recursos pra saúde, esporte e educação!