Entre os dias 01 e 04 de outubro, ocorreu o XII Congresso de Estudantes da USP. Cerca de 350 delegados eleitos na base dos cursos participaram desse espaço, o que sem dúvidas foi um importante processo que serviu para aproximar o movimento estudantil do conjunto dos estudantes. Nós, da Juventude Vamos à Luta, participamos pela primeira vez de um congresso na USP, e consideramos que foi muito positiva a nossa participação nas atividades pré-congressuais, na eleição de delegados do IME e no Congresso em si. Pudemos conhecer e começar a participar do movimento estudantil da USP, apresentando nossa visão sobre a situação do país, das universidades e da USP em particular. Por isso, queremos contribuir um pouco com o debate sobre a avaliação do congresso. Acreditamos que o Congresso teve diversos pontos positivos, mas também queremos apontar neste texto algumas contradições que dificultaram discussões mais importantes em detrimento de outras.
Um Congresso em meio a crise do país, ataques dos governos e muitas lutas sociais
Sem dúvidas o momento político pelo qual vive o país impactou em maior ou menor medida os variados momentos do Congresso. O duro ajuste fiscal aplicado pelo Governador Alckmin aqui no estado de São Paulo, e pela presidente Dilma em nível federal, perpassou diversos debates. A resposta dos trabalhadores, que tem sido dada em todo país, foi expressa na saudação dos companheiros do Sintusp que, além de expor a situação dos técnico-administrativos da Universidade, pediram a solidariedade dos estudantes à greve dos trabalhadores da Prefeitura localizada no Campus Butantã, que enfrentou diretamente a política de desmonte do reitor Zago.
A mesa inicial do congresso foi sobre a conjuntura política do país. Sem dúvidas o que mais marcou este espaço, que tinha como debatedores, Atnágoras Lopes pela CSP-Conlutas, Thiago Aguiar pelo Juntos, e um membro da Direção Estadual do MTST, foi a necessidade da esquerda construir uma alternativa frente a crise do país.
Acreditamos que hoje o que está colocado é a construção que aglutine as forças da esquerda para derrotar a política de ajuste fiscal de Dilma, dos tucanos e do PMDB. Neste sentido, somos parte daqueles que vemos que não há como construir uma saída para o país ao lado de organizações políticas que são base de sustentação do governo federal. Infelizmente o MTST, que encabeça a “Frente Povo Sem Medo”, tem a política de uma frente em comum com setores governistas. Não à toa, a convocatória de lançamento da “Frente”, não falava uma vez a palavra Dilma, claramente isentando a presidente de sua responsabilidade pelos ataques contra os trabalhadores e a juventude brasileira. Infelizmente, os companheiros do Juntos e do RUA, que tem importante representatividade no movimento estudantil, estão fazendo parte desta frente também.
Está claro que do ponto de vista da conjuntura política existe um espaço à esquerda a ser ocupado para construção de uma alternativa e achamos que o movimento estudantil da USP também pode cumprir um importante papel. Por isso, queremos ressaltar a importância da ampla maioria dos delegados ter votado na resolução de conjuntura defendida por diversos setores do movimento estudantil que estão na oposição de esquerda ao governo petista em nível nacional e ao governo Alckmin aqui em SP. A resolução apoiada pela Juventude Vamos à Luta, Juntos, RUA, Pra Além dos Muros, Juventude às Ruas, Rizoma, Território Livre, UJC e Esquerda Marxista, sintetizou a necessidade de enfrentar os ambos projetos que governam o estado e o país.
A polêmica da proporcionalidade e a proposta de desfiliação da UNE
Dois debates, no entanto, tomaram uma proporção exagerada por parte de coletivos, em nossa opinião: o debate sobre a proporcionalidade e sobre a desfiliação da UNE. Infelizmente, estes debates serviram pouco, ou praticamente nada, para armar as lutas dos estudantes da USP frente a rica conjuntura na qual estamos atuando. Ao acabarem se tornando praticamente os eixos do Congresso, deixaram de lado discussões acerca da luta dentro da universidade. Por exemplo, pouco foi debatida a política do movimento estudantil para segurança ou frente a desvinculação do HU, ou então frente a falta de professores em alguns institutos. Em nome de uma disputa que pouco tinha a ver com as necessidades reais dos estudantes, várias pautas que estão colocadas na ordem do dia foram praticamente descartadas.
A proposta da proporcionalidade na gestão do DCE, provavelmente mais do que qualquer outro debate, assumiu uma proporção desmensurada e acabou sendo a principal polêmica do congresso. Duas dentre as três principais forças do DCE (ANEL/PSTU e RUA), conseguiram unificar em torno de sua proposta de proporcionalidade desde correntes governistas até o MRT, que atua como oposição pela esquerda ao DCE. Acreditamos que um DCE da USP proporcional teria diversos problemas como a entrada da velha direita e o governismo dentro da entidade, dificultando a aplicação de uma política de esquerda consequente dentro da entidade. Achamos ruim que tal proposta que se dava em torno apenas da própria proporcionalidade, pois entre os agrupamentos que defenderam esta proposta não há nenhuma unidade política. Por isso, preferimos dar nosso voto pela manutenção da majoritariedade e desde já defendemos uma ampla unidade da oposição de esquerda para as próximas eleições do DCE. Felizmente, por não alcançar os 60% necessários para a mudança estatutária, esta proposta de DCE proporcional não passou.
Infelizmente, mesmo após mais de uma década de sua ruptura com a UNE, a juventude do PSTU, através da Anel e do Coletivo Pra Além dos Muros, teve novamente como um eixo de sua atuação a proposta de que o DCE saia da UNE. Não fazem nenhum balanço de que em 2009, quando foi fundada a ANEL, esta entidade tinha a maioria da diretoria de DCE’s como o da USP, UFRJ e UFMG. Hoje não tem nada perto disso, mostrando um brutal retrocesso político. Hoje as principais polêmicas no Movimento Estudantil Brasileiro se dão dentro da UNE, por isso achamos fundamental atuar na entidade como oposição de esquerda a sua direção majoritária. Enquanto o Congresso da ANEL tem centrado seus debates nas polêmicas entre o PSTU e o MRT, no Congresso da UNE ocorrem as discussões fundamentais do movimento estudantil, que nada mais são que os debates contra os governistas. Ao invés de discutir centralmente uma política de unidade entre todos os que lutam contra a política do governo Dilma, ou seja, centralmente a Oposição de Esquerda da UNE e a Anel, fazem o seu debate sem colocar nenhuma distinção entre a direção majoritária da UNE (PCdoB/ PT), e sua política governista, e a Oposição de Esquerda, que dirige importantes DCE’s pelo país, e participou das principais lutas contra o governo no último período. Felizmente, sua proposta foi derrotada por 152 x 80.
As lutas da USP no próximo período
Acreditamos que em geral o Congresso foi bastante importante para o fortalecimento do movimento estudantil na base da Universidade. O calendário de lutas definido pelo Congresso começou a se materializar logo em seguida no apoio à greve dos técnicos da prefeitura que estava ocorrendo naquele momento. Nós do Vamos à Luta também estivemos lá no ato-vigília levando nosso apoio e solidariedade. Também foi apontado o dia 15 como um dia de paralisação e diversas atividades na Universidade, que é muito positivo. Está claro que os estudantes da USP tem motivos de sobra pra organizarem suas lutas e continuidade desse calendário e o papel que o movimento estudantil podem cumprir é fundamental.
