Michel Oliveira*
Enquanto a juventude latino-americana segue sua luta pela gratuidade do ensino público, enfrentando brutal repressão, os governos da Venezuela, Bolívia e Equador estão na trincheira oposta, ao lado de nossos algozes. Hugo Chaves é o maior representante da linha de estabelecer acordos estratégicos com os governos mais reacionários do continente: Sebastián Piñera no Chile e Manuel Santos na Colômbia. Desse modo, aliando-se a eles, Chaves se converteu em inimigo da juventude latino-americana.
A juventude Chilena segue sua luta nas ruas de Santiago, nas ocupações de Colégios, ao lado dos mapuches, dos mineiros, trabalhadores da saúde e do povo com seus panelaços. Precisa de apoio e solidariedade internacional para enfrentar o neoliberalismo e as balas de Piñera. Porém, foi apunhalada pelas costas pelo governo Venezuelano. Na recente cúpula de fundação da comunidade de estados latino-americanos e caribenhos (CELAC), realizada em Caracas, Chaves entregou a presidência do organismo ao presidente do Chile. Trata-se do que Simon Rodrigues Porras, da juventude da USI-PSL da Venezuela, qualificou corretamente de “insulto aos estudantes Chilenos”. (http://vamosaluta.com.br/2011/12/06/a-eleicao-de-pinera-a-presidencia-da-celac-e-um-insulto-aos-estudantes-chilenos/)
A juventude colombiana, inspirada pelos Chilenos, tomou as ruas de Bogotá, contra a nova lei de Educação Superior do governo Manuel Santos. As imensas manifestações visavam barrar a privatização da educação. Os protestos foram brutalmente reprimidos e lideranças foram presas, num país cujo presidente acaba de assassinar outro líder das FARC. Aí também Hugo Chaves estava no campo oposto ao da luta estudantil, tudo por conta de acordos econômicos e diplomáticos com a Colômbia. Não esquecemos que Chaves presenteou Santos com o ativista Pérez Becerra (de suposta ligação com a guerrilha), provando sua subserviência à linha anti-insurgência da Casa Branca.
Os fatos são maiores que a cordilheira dos Andes ou o rio Amazonas, demonstrando a todos que estiverem dispostos a enxergar que o período de confrontos parciais entre Chaves e o imperialismo ficou no passado. Todos os ativistas de esquerda de nosso continente, sobretudo os ainda vinculados ao bolivarianismo, devem refletir sobre esse giro à direita do governo venezuelano, porque Bolívia e Equador seguem a mesma trilha.
Esse giro à direita, normalizando as relações com o imperialismo, é realizado no contexto da crise econômica mundial, das revoluções no norte da África e da intensificação da luta de classes na Venezuela, Bolívia e Equador. E a política de Chaves, Evo e Correa é aplicar ajustes contra o povo trabalhador, reprimir os protestos sociais e defender ditaduras sanguinárias no mundo árabe.
Diante da decadência dos chamados “governos de esquerda” de nosso continente é necessário penetrar fundo na questão avaliando seus programas e estratégias. O “socialismo do século XXI”, assim como o “Socialismo Andino” e a “revolução cidadã”, foi aplicado à risca na Venezuela, Bolívia e Equador demostrando as limitações dos projetos nacionalistas burgueses. Esses programas faliram, encerrando o recente ciclo de apogeu do chamado “nacionalismo latino americano” que, como todo nacionalismo burguês, termina entregando-se ao imperialismo e confrontando o movimento operário, indígena e popular. Apesar de atritos com o imperialismo ou algumas conquistas sociais em seu início, fruto das pressões sociais, hoje eles estão em evidente retrocesso. Essa estratégia nada tinha de novidade, tratava-se de governar com empresários, com economia mista (privada e estatal), elementos keinesianos, pactos com os golpistas (constituição na Bolívia e anistia na Venezuela) e extensa burocracia estatal. É semelhante ao modelo sandinista, aos ditadores capitalistas Chineses e demais burocratas do leste Europeu ou as experiências da social-democracia na Europa e no Chile. Não difere muito da linha “democrática e popular” do PT, que desarmou o partido e o levou as traições dos governos Lula e Dilma. A crise dessa estratégia também acompanha o desastre social que caracteriza a ditadura do partido único na ilha de Cuba, em meio à restauração do capitalismo, sob reinado dos Irmãos Castro.
Partidos como o PSUV (Partido Socialista Unificado Venezuelano), com empresários bolivarianos, ou o MAS (Movimento ao Socialismo) com golpistas de Santa Cruz em seu interior, não podem ser classificados como revolucionários. De socialistas só tem o nome. Nesse sentido, as políticas emanadas do palácio Miraflores (Caracas) ou do Palácio Quemado (La Paz) nada tem em comum com a esquerda socialista latino-americana.
Chegamos ao fim de um ciclo em função do esgotamento das lideranças que representaram as aspirações do Caracazo venezuelano, da Guerra da Água boliviana ou da revolução indígena que derrubou Mauhad no Equador. Eles chegaram à presidência e não aplicaram os programas que garantiram suas vitórias. O gás boliviano ou o petróleo venezuelano, continua nas mãos das multinacionais, por exemplo.  Ao mesmo tempo, indígenas, estudantes, sindicalistas, militares, o povo pobre que luta é preso, reprimido e tem suas entidades sob intervenção federal ou é acusado cinicamente de “agente de los yankees”. No entanto, não chegam ao fim as lutas e as contradições que deram origem a esses movimentos, cujas bases seguem mobilizadas por suas antigas demandas. Não há derrota na luta de classes na Venezuela, Bolívia ou Equador. Por isso a esquerda classista, aquela que não capitula a velha direita nem ao suposto nacionalismo governante, se desenvolve nesses países e está em melhores condições para crescer.
Estamos, portanto, diante da agonia de uma esquerda reformista, pró-capitalista, que capitulou ao imperialismo e trai as lutas de massas que estão se dando na América Latina e no mundo. Trata-se da crise das correntes castro-chavistas, que nos últimos anos consolidaram-se como um gigantesco obstáculo impedindo o avanço dos revolucionários em nosso continente. Não significa que esses aparatos vão desaparecer rapidamente. Podem disputar eleições ou até mesmo triunfar em reeleições, sobretudo na Venezuela. Porém, em meio ao declínio atual, perderam o magnetismo “esquerdista” que seduziu milhares de honestos lutadores na década passada.
As novas lutas, como o gasolinaço, a marcha de Tipnis, os protestos da FADESS, e a fenomenal luta chilena estão gestando novas lideranças. A tarefa do momento é a batalha incessante para se vincular a vanguarda que surge ou rompe com as velhas direções para forjar a organização revolucionária de massas que tanto se necessita na Venezuela, Bolívia e Equador. Ao mesmo tempo é importante perceber que estamos em meio a um processo continental que, em maior ou menor grau, cruza todos os países. A derrota do PC e de Camila Vallejos na última eleição da FECH é um exemplo do avanço da luta anti-burocrática que está em curso nas escolas e universidades chilenas. Este fato evidencia os desafios e possibilidades abertas para os revolucionários frente uma vanguarda juvenil que se reivindica anti-capitalista e repudia a conciliação de classes ao estilo dos governos da “concertación”.
Ao conseguir nossa vinculação a esses processos, aprendendo com as novas experiências, poderemos contribuir para que os lutadores percebam a ligação entre suas reinvindicações e a necessidade de derrotar o regime social como um todo. Para isso partimos das propostas e programas que os conflitos já gestaram ou estão gestando em sua batalha contra as traições dos governos e dos aparelhos hegemônicos na esquerda. Esse é o caldo de cultura para construir uma esquerda classista, que se distingue claramente do espontaneismo horizontalista e da esterilidade dos ultra-esquerdistas. Uma esquerda que construa o partido ou a “ferramenta política” – conforme a resolução dos minérios bolivianos – que batalhe por governos operários, indígenas e populares, para expropriar os capitalistas, garantir educação 100% estatal, controlar nosso subsolo, cuidar de nossa biodiversidade e garantir socialismo e liberdade na terra da revolução permanente.
Estamos com os estudantes Chilenos para forjar essa verdadeira esquerda latino-americana no momento em que a indignação contra o sistema capitalista marca o sentido da nossa história. O socialismo do nosso tempo, assim como no passado, é sempre sem patrões e privilégios. Ele se tempera na luta encarniçada do agora, contra os burocratas e os agentes da contra-revolução, contra todos aqueles que não nos representam.
* Diretório Nacional do PSOL, Coordenação da CST